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William Golding

“Diante de Simon, o Senhor das Moscas estava pendurado na vara e sorria. Enfim, Simon desistiu e olhou; viu os dentes brancos e os olhos opacos […]”

Obra: O Senhor das Moscas. VIII. O Globo, 2003, Rio de Janeiro. Tradução de Geraldo Galvão Ferraz. De William Gerald Golding (UK/England/Newquay, 1911-1993).

A história de meninos “aborrecentes” confinados em uma ilha, sem adultos, sobreviventes de uma queda de avião e o desenvolvimento de uma ordem comum sob uma abordagem do problema da degeneração moral em meio à violência e à rivalidade que acometem a espécie humana.

O Senhor das Moscas entendi como uma alegoria.

Mas logo meditei que o conceito de degeneração moral pode vir carregado de ideias pré-concebidas que tendem a ofuscar o seu significado mais profundo. Simplesmente nada significa ao considerar o roteiro (alegórico, penso) do romance? Talvez, pois nessa ilha-mundo, segui com a minha leitura ilustrada, os meninos implicam em um estado bruto da nossa espécie, imaginei.

Não ter meninas me deixou pensativo quanto ao que supostamente pretendeu o autor. Não consegui alegorizar essa ausência, tampouco a considerei um detalhe sem importância, mas poderia sê-lo? No sentido de que poderia haver algo maior a ser decodificado, se bem que o sexo mais delicado e inteligente (à mon avis), pensei, pode representar outro estágio da nossa espécie, não combinando a narrativa do autor com a infância ou o estado não lapidado que parece propor.

Pensei no conceito de obra aberta de Umberto Eco e segui em frente na minha aventura interpretativa. Jack e Ralph representariam a personalização da disputa pelo maior poder, o político. Eles são, inevitavelmente, os polos da degeneração. Jack está no topo e Ralph em seu regaço, e estando em uma posição inferior, mas de grande impacto como chefe dos caçadores, procura galgar degraus no comando do grupo e se aproveita de um medo comum que acomete a todos em torno de uma crença de que na ilha há um ser misterioso e sombrio. Eles vivem como no tabuleiro das disputas regadas a manipulação, cobiça, violência, arrogância e selvageria.

No meio do que a visão civilizatória chamaria de degeneração, há a figura de Simon, um tanto enigmática, virtuosa, sensível, delicada. Simon não trilha o caminho de valores que prevalecem entre os que lideram ou, em uma leitura à luz de um senso de moralidade comum em crenças que se pautam no conceito de “bem”, Simon não se corrompeu. Diante da horripilante personagem do Senhor das Moscas, que me soou como a personificação do mal , a figura de Simon é antítese, como se representasse uma ligação com uma ideia de outra ordem, de uma paz ou de uma salvação, e então pensei no nome que me remete a “Simão Pedro”, pois esse mesmo Simon encabeça os meninos à forma de pegar os frutos das árvores altas, além de liberar o cadáver do paraquedista que até então era visto como o bicho que perturbava o imaginário dos meninos. Simon então, nessa minha alegoria, encarna o instrumento da representação da libertação espiritual.

Evidentemente é apenas uma forma de ler este romance, sendo a que me deu um sentido mais interessante por baixo das camadas que podem incomodar muitos leitores, dada a violência que o autor trabalhou e fica latente em uma leitura, diria, literal.

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