Imagem: BBC

“Houve uma época em que foi considerado sinal de loucura acreditar que a Terra gira em torno do sol; hoje, loucura era acreditar na imutabilidade do passado.”
Obra: 1984. Capítulo 7. Se há esperança [Winston escreveu], é nos proletas. Principis, 2021, Jandira. Tradução de Karla Lima. De George Orwell, pseudônimo de Eric Arthur Blair (Índia/Motihari, 1903-1950).
No dia dos pais do ano passado minha filha mais nova, entre os mimos, presenteou-me com esta edição. Um dos romances mais impactantes que li no início da juventude, quando então retribuí a presenteando com a edição da Companhia das Letras (2009) que usei para registrar experiências de leitura desta obra [532].
O primeiro contato que tive com 1984 se deu por meu mentor em 1995. Enquanto caminhávamos na Jaqueira, ele resenhou a obra e depois me levou para apreciar a edição britânica que guardava em sua casa como uma preciosidade quase intocável, mantida em um armário muito bem decorado e iluminado, cheio de anotações que remontavam à sua juventude e, obviamente, com centenas de livros, quase todos em capa dura, os quais prezava sendo os mais importantes em sua formação de leitor, tudo a compor uma espécie de relicário, com destaque a um tempo que passou na Europa. Havia na biblioteca fora do armário uma edição em português desta obra, adquirida em Lisboa, a qual me emprestou.
– Se alguém muito próximo desejar compreender melhor o meu jeito de ser, terá que conhecer bem o que há neste armário – falou o professor viúvo de estilo “eremita urbano”. Hoje tive a ideia de montar um armário inspirado no que vi e escutei naquela visita, enquanto pensei que este espaço de registro pode ter sido o começo deste propósito.
Ele me desafiou a “esquecer” a resenha para me desarmar da análise crítica que fez durante a caminhada, tornando possível ler o romance melhor. Fiquei empolgado com o pedido e, na energia de meus 20 anos de idade, ganhei o final da tarde, passei a noite e atravessei a madrugada, fascinado, até finalizar a leitura da distopia, cuja experiência se dera em um período marcante de minha vida, pois em paralelo estava dando adeus às crenças no socialismo.
Sobre o trecho (p. 89), como funcionário do Ministério da Verdade (Miniver), cuja função é falsificar documentos para produção de narrativas de interesse do governo, Winston pensa sobre o quanto o passado certamente fora reescrito diversas vezes “até que os fatos e as datas originais já não tivessem a menor importância” (p. 89), ao identificar um documento que ficou esquecido entre os demais (p. 87) e contradizia a versão corrente oficial de uma conspiração contra o regime. A alteração do passado que faz a mentira se tornar verdade, está no contexto de manter a massa sob a ideia de que o regime é sinônimo de compromisso ético com a verdade histórica, liberdade e progresso social.
Indignado com um regime que frauda a história de forma contínua, adaptando-a de acordo com as circunstâncias, Winston se encontra em meio a um espírito crítico comparativo entre o narrado como melhoria contínua de uma sociedade bem sucedida, em termos de bem-estar aos cidadãos, e o que percebe como realidade decadente de “cidades imundas, onde pessoas subnutridas zanzavam em sapatos furados por casas remendadas do século XIX, que sempre fediam a repolho e lavatórios ruins” (p. 84), com o instrumental de estatísticas enganosas que eram disseminadas pelas teletelas onde se contava uma história bem diferente, “provando que na atualidade as pessoas tinham mais comida, mais roupas, casa melhores, entretenimento de qualidade , que viviam mais, trabalhavam menos, eram mais altas, mais saudáveis, mais fortes mais felizes, mais inteligentes, mais estudadas, do que as pessoas de cinquenta anos atrás” (p. 84).
Diante de um cenário de manipulação tão profunda e intensa, Winston não vê esperança de mudança a não ser em relação ao que afirma na abertura do capítulo, quando entende que somente dos proletas, “das massas agitadas e menosprezadas, oitenta e cinco por cento da população da Oceania, poderia vir a força que destruiria o Partido” (p. 79), dos que são ensinados na cartilha governamental revolucionária sobre a libertação da opressão capitalista que foram beneficiados (p. 80), segundo narrativa do Partido que, apesar de bem pouco se saber sobre quem realmente são, pelos “princípios do duplopensar”, se ensina que os proletas são “naturalmente inferiores”, carentes, cabendo de serem “mantidos nessa condição, como bichos” (p. 80), o que converge ao lema do Partido: Proletas e animais são livres” (p. 82), no sentido de estarem à margem da doutrinação, sem as imposições mais exigentes de conduta direcionada aos membros do Estado e do Partido, entidades que, na prática, são a mesma coisa. Proletas ficavam alheios à ideologia partidária, podiam fazer sexo à vontade, sem os controles puritanos e até professar fé religiosa, enquanto espionados por agentes da Polícia do Pensamento que disseminavam contra informação, “rumores falsos”, identificando e eliminando os que eram eventualmente considerados perigosos à conservação do regime (p. 80).
Em regime totalitário, o apelo desonesto ao revisionismo histórico não é novidade; fascistas, nazistas e comunistas se mostraram experts nisso. Contudo, a proposição do revisionismo histórico é versada em sistemas democráticos, normalmente onde atuam grupos sob a bandeira da luta contra determinado preconceito. Entendo que a liberdade para pesquisa e expressão no laboro científico esvaziado de crenças políticas e ideológicas, não apenas religiosas, consiste em uma chave elementar para neutralizar a instrumentalização de algo que, impreterivelmente, se baseia em investigação submetida a critérios rigorosos de confirmação científica, pois caso contrário, o MiniVer da distopia de Orwell poderá se tornar realidade. Talvez lentamente se possa aproximar de coisa do tipo em democracias, onde predomine alguma forma de tutela no monopólio estatal, não apenas sobre a ciência chamada História, mas também à educação em geral.
532. 19/01/2025 19h32, 05/10/2024 18h49, 07/11/2022 00h18 e 22/07/2022 23h04
Comentário