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“Os judeus podiam ser despojados de todas as posses, como ocorre constantemente ao longo da história, mas ninguém podia tirar-lhes o preparo intelectual.”
Obra: O Vento Sabe Meu Nome. Os Adler. Bertrand Brasil, 2025, Rio de Janeiro. Tradução de Ivone Benedetti. De Isabel Allende Llona (Peru/Lima, 1942).
1938: Viena foi tomada pelos nazistas alemães. O povo aclamara as tropas de Hitler que entraria triunfante dois dias depois da invasão (p. 10). O doutor Rudolf Adler faz parte da burguesia secular e culta da cidade (p. 12), no entanto, a chegada do Terceiro Reich mudou bastante sua confortável posição. Adler passou a viver evitado por quem antes da tomada não fazia distinção com cidadãos austríacos de origem judaica. Percebe que passou a ficar cercado (p. 18) pelo ódio e pela “histeria antissemita”, a qual esperava não se prolongar na “cidade mais refinada da Europa, berço de grandes músicos, filósofos e cientistas” (p. 13).
Ah Viena… O que dizer de um lugar onde afloraram as sinfonias de Mozart e Beethoven, além da valsa de Strauss? Um dos mais impressionantes berçários da intelectualidade ocidental. Viena do doutor Freud, que pariu a psicanálise, e de outro Adler, o Alfred (o qual tenho muito apreço como fundador da psicologia do desenvolvimento individual). Em Viena se revelou ao mundo também o pai da logoterapia, Viktor Frankl, e Erwin Schrödinger, Nobel de Física em 1933 pelo que contribuiu à mecânica quântica.
Naquele centro extraordinário se desenvolveu também o maior ícone da Escola Austríaca de Economia, Ludwig von Mises, seguido por seu então jovem estudioso da tradição clássica, outro pupilo desta cidade tão especial, Friedrich Hayek, um dos mais notáveis pensadores de economia no século XX, personalidade que protagonizou o grande embate de teoria econômica com o desenvolvimentismo do lorde Keynes.
É nesta Viena que o médico Rudolf Adler caminha sem perspectiva a carregar “o peso do mundo nos ombros” (p. 10) ao vê-la tomada pelo espírito nazista. O doutor começava a considerar a hipótese de emigrar (p. 14). Ele pensa sobre o que será de Samuel, seu filho, educado no “sustentáculo da tradição e da comunidade judaica” (p. 12), com “gênio musical” a praticar violino e piano (p. 22). A esposa de Rudolf, professora de piano (p. 17), Rachel, fora de “racional e prática” à convivência com a ansiedade pelo radicalismo da política, o que a fizera viver à base de tranquilizantes (p. 11). O temor da senhora Adler se materializou na Noite dos Cristais, quando o consultório do marido foi vandalizado e o apartamento da família, saqueado (pp. 24-25), e o pai não pode se juntar ao filho e à mãe, escondidos no apartamento do vizinho enquanto nazistas caçavam judeus no residencial. Seria uma separação definitiva. O menino Samuel depois seria conduzido pela mãe e o vizinho a um kindertransport (operação humanitária que salvou milhares de crianças judias) para ser acolhido na Inglaterra.
Literatura de alto gabarito. A narrativa em torno de um drama, acerca de uma separação tão cruel entre pais e filho, não serve para enaltecer a dor. Eis onde começa este romance de Isabel Allende, que certamente terá vários registros. Enquanto denuncia, forma um pano de fundo na temática para inserir outras personagens que se entrelaçam em sentimentos de afeto extremo, combinando saltos temporais e reencontros.
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