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– Mas, se não dá para ver, como a gente sabe que ele existe? – perguntou Isabela.

Obra: O fio invisível. Caminho Suave, 2022, São Paulo. Tradução de Camila Werner. De Patrice Karst. Ilustrações de Joanne Lew-Vriethoff.

Choveu por toda uma noite naquele carnaval de 1981 que passei na casa de minha vó materna. Cada trovão era um monstro que explodia tudo no céu e queria me pegar, e então corri para debaixo da cama. O clarão dos relâmpagos pela janela completava um cenário do terror que moldava minha imaginação.

Minha vó “Bebé” entrou no quarto e sentou na cama. Ela também tinha medo dos trovões e a cena se tornou hilária enquanto tentava me convencer a sair de meu esconderijo. Assim dava pequenos gritos em cada trovejar acompanhando os meus em uma insólita sinfonia. Passamos a madrugada juntos, quando então ela falou:

– Nunca deixarei você sozinho, estou aqui.

Senti um conforto extraordinário e deixei o refúgio para sentar ao seu lado. Um ficou aprendendo um pouco com o medo que o outro sentia. Foi aos seis anos e o que consegui recuperar daqueles flashes tão dispersos ecoaria em um momento de minha vida adulta. Quando amanheceu, estava tranquilo, dentro das cifras do meu universo lúdico, eis a primeira recordação recuperada sobre o significado de uma presença protetiva amorosa no meio de uma agonia. Foi obviamente superdimensionada em minha mente, mas não deixou de representar uma agonia marcante.

Outra recuperação importante se deu em torno de um evento em que passei pela maior experiência de dor física que senti [568], desta vez pela presença de minha mãe no hospital em outro “estou aqui” que se tornaria indelével. A presença firme protetiva, em determinados momentos de grande temor em uma criança, proporciona uma conexão de segurança na formação que se internaliza e pode ser recuperada em momentos críticos da fase adulta; os dois registros foram utilizados em uma psicanálise, seguida de uma psicoterapia.

Quando li esta obra infantil, que inspira muitas “crianças crescidas” pelo mundo, lembrei-me que o meu eu adulto estava, em um certo sentido, como uma criança. A diferença é que no livro se ilustra um processo normal de dúvidas e descobertas em assimilação na infância, e no meu caso, tratava-se de um jovem que precisou reaprender a sentir o fio invisível da proteção, do amor, da bondade que liga as pessoas. Precisava superar limites impostos por temores desmedidos, super dimensionados, que pairavam em sua mente.

Hoje sinto esse fio que me mantêm na energia da vida, por uma malha de cooperação de pessoas que me ajudam pessoal e profissionalmente; é o que me faz agradecer por cada dia, independente de considerá-lo “bom” ou “ruim”, sabendo que são definições que faço de forma tão precária nos limites de minha razão, vencida pela linguagem do “fio invisível”.

568 18/10/2025 19h27

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