Imagem: Biblioteca de São Paulo

Leon Tolstói

 “Ele escutou aquelas palavras e as repetiu em sua alma. ‘A morte acabou. Ela não existe mais’”

Obra: A Morte de Ivan Ilitch. VII. Principis, 2023, Jandira. Tradução de Robson Ortlibas. De Lev Nikolaevitch Tolstoi (Rússia/Yasnaya Polyana, 1828-1910).

Ontem ganhei de minha esposa uma edição mais recente desta obra, desta vez em formato físico. A que li pela primeira vez foi no Kindle.

Ivan Ilitch vive o drama do medo da morte, envolto em uma mistura de sentimentos; desespero (p. 57), revolta, angústia (p. 71), indiferença com parentes (p. 88), autopiedade (p. 80), em função de seu adoecimento e o sensação de que caminhava para a morte. Deitado em seus últimos momentos, percebe que ao morrer aliviaria familiares, e então “ficou claro para ele que aquilo que o atormentava e o oprimia, estava saindo do seu corpo” (p. 94).

“Onde está? Que morte? Não havia medo algum, porque não havia morte (p. 94).

O temor da morte se foi e em seu lugar “havia luz”, mudança que ocorrera em um instante que “já não se alteraria” (p. 95). Enquanto encerrava sua vida terrena, entre gemidos que se tornavam cada vez mais raros, Ivan Ilitch escutou alguém falar “Acabou!”, e eis que repetiu em sua alma, “puxou o ar para si, parou na metade do suspiro, enrijeceu e morreu” (p. 95).

Ao conferir esta boa edição de A Morte de Ivan Ilitch, pensei hoje novamente no amigo que, nos meus 32 anos, deu-me uma das maiores lições de vida a respeito da morte em uma condição em que se está iminente, o que registrei em uma experiência de leitura em relação a outra releitura que realizei deste romance [580]:

“parei para voltar ao final de abril de 2007, quando subi a uma ala hospitalar semi-intensiva ainda vivendo o luto de meu pai. Tinha descoberto em conversas no seminário em que condições se encontrava e onde estava internado um velho conhecido de uma igreja que tinha passado em 2002. […]”

O poema As Velhas Árvores, de Olavo Bilac, também me inspirou às recordações do velho camarada espirituoso que, à época da igreja, ensinou-me a ver o envelhecimento com alegria, bem como me dissera que desde o fim da juventude estava trabalhando para superar o medo da passagem que chamamos de “morte” [581]:

Não choremos jamais a mocidade!
Envelheçamos rindo! envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem
.

O poema Non, je ne regrette rien, o nome dei pela música que me veio em mente, na ocasião, foi resultado da experiência de leitura do poema de Bilac combinado com a recordação no hospital. Quando saí da visita, fiquei um tempo no carro pensando e chorei, mas não era “apenas” por tristeza; havia um sentido de gratidão a Deus pela profundidade da lição que recebi. Escrevi então a partir de uma licença poética da essência da conversa que tive com ele.

Agora podes me chamar de idoso.
no que, por enquanto, e derradeiramente
celebro rindo, pois estou indo,
meu pregador amigo e “ficoso”.

Non, rien de rien, Non, je ne regrette rien

Vivemos em uma eternidade
e a morte é uma ilusão, não existe,
há apenas mudança de estado,
passagem à outra realidade.

Até então nunca tinha visto uma pessoa enxergar a proximidade da própria morte daquela forma tão sublime, serena e bem humorada. Ivan Ilitch me remete a quem supera esse processo nos últimos momentos, na agonia final. A de meu amigo diz respeito a quem desenvolveu uma maturidade de forma gradual, para lidar com o que a natureza nos reserva ao longo da vida, e normalmente consolida quando se reconhece na velhice.

580. 24/09/2025 22h04

581. 31/12/2025 08h00

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