Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

“Assim como Cristo Senhor nosso disse a Dimas: Hodie mecun eris in Paradiso […], assim disse a Zacheu: Hodie salus domui huic fact est.”
Obra: Sermão do Bom ladrão ou da Audácia. Em Sermões Escolhidos. Martin Claret, 2004, São Paulo. De Padre António Vieira (Portugal/Lisboa, 1608-1697).
Acredito que os sermões de Vieira merecem ser lidos por todo católico. Sou quase um, talvez o seja e nem saiba, ainda. Tentei me imaginar como ouvinte do padre, isso posto porque a sofisticação de seu raciocínio, pela experiência de leitura, indica-me uma dinâmica maior. Penso que um texto seja muito mais do que um encadeamento (lógico ou não) de palavras, residindo em cifras que podem ser atestadas na experiência com a sua manifestação original, enquanto a leitura pode também ir além para alcançar significantes que podem ser diversos e até mais intensos que os significantes do autor.
O grande orador sacro português do século XVII e o estimado teólogo e arqueólogo Rodrigo Silva (Brasil/Minas Gerais/Belo Horizonte, 1970) de formas bem distintas, encontraram-se nessa leitura de hoje em meio ao que penso sobre “texto” de uma mesma referência bíblica. Isso posto, porque ao ler o sermão, lembrei-me que, acerca de Lucas 23:43, há uma interessante tese de doutorado [550] do brasileiro sobre a sintaxe do advérbio Σήμερον.
Também me lembrei de algo marcante assimilado no tempo de seminarista (2003-2007) ao considerar a tese de Rodrigo Silva. Quando se pensa em “texto” nessa categoria, vejo como há muitos elementos envolvidos, a começar da origem primária, se o “texto” foi somente falado depois repassado para uma versão escrita (quem sabe em anos ou décadas), apenas pensado e redigido, eventualmente reescrito – e novamente o problema do tempo entre as ocorrências importa muito – se foi derivado de uma interpretação de gestos, passando para um formato de palavras ou sons, etc., entrando no problema da real intenção da fonte.
A experiência de lidar com um texto escrito/falado/encenado pode ser registrada diversamente, diria, de maneira repensada, alcançando questões ideológicas, interesses políticos, historiografia, métodos utilizados nas traduções e peculiaridades gramaticais das línguas envolvidas, edições, adaptações para outros formatos, até chegar ao leitor, um longuíssimo caminho onde certamente haverá alta probabilidade de mais um significado diverso, adentrando em hermenêutica, não apenas mediante os significantes que dispõe o leitor, diga-se de passagem naturalmente muito afastado do registro original, mas do processo de interpretação do leitor da adaptação em si da versão acessada.
Volto-me agora ao sermão de Vieira, que promove uma conexão entre a narrativa do tratamento de Jesus a um dos sentenciados no Gólgota, na tradição conhecido por “Dimas”, e o tratamento dado pelo mesmo Jesus das narrativas apostólicas a Zaqueu (escrito como “Zacheu” no texto do sermão que disponho).
Padre Vieira usa um texto de Novo Testamento em latim, provavelmente da Vulgata. Aqui penso no problema da vírgula que deixa muita gente presa na polêmica e envolve a tese de Rodrigo Silva (Seria “te digo hoje, estarás comigo no paraíso” ou “te digo, hoje estarás comigo no paraíso”?). Uma discussão muitas vezes doutrinária no emaranhado de confissões. Já vi muitos entrarem em rixas que depõem contra o espírito da fraternidade cristã por causa disso.
Contudo, destaca Vieira em latim quanto ao que Jesus diz a Dimas:
Hodie mecun eris in Paradiso
E diante de Zaqueu:
Hodie salus domui huic fact est.
Então Vieira traça um ponto em comum: ambos eram “ladrões”, mas porque a Dimas Jesus prometeu a salvação imediata, e a Zaqueu, não imediata ou, diria, ao entrar na casa de um abastado chefe dos publicanos, Jesus se anunciou como salvação, mas não foi direto, em comparação com o que decidiu sobre Dimas durante a crucificação. Então Vieira argumenta: “Dimas era ladrão pobre e não tinha como restituir o que roubara; Zaqueu conhecia a Cristo “só por fama” (p. 115), era ladrão rico, “tolerado”, e “tinha muita coisa com que restituir” (p. 114).
O grande pregador parece sugerir que haveria um propósito de justiça terrena para Zaqueu participar no seu processo de conversão, por isso Cristo “dilatou a promessa” (p. 115), quando o visitou e assim promoveu uma oportunidade para que o publicano pudesse compensar os males que causou ao povo na cobrança de impostos, enquanto Dimas, na cruz não tinha mais como reparar os danos que causou e, confesso do senhorio de Jesus, recebeu a promessa no momento.
Se Dimas fosse rico como Zaqueu, não estaria condenado na cruz, lembra Vieira (p. 114), acerca do tipo de execução aplicada. Zaqueu, tendo muitas coisas para devolver de suas vítimas, ganhou o que lhe cabia na ocasião da visita de Jesus: a atenção do mestre. O Salvador entrou na casa de Zaqueu, mas a salvação “não pode entrar sem se perdoar o pecado, e o pecado não se pode perdoar sem se restituir o roubado” (p. 116).
Non dimittitur peccatum, nisi restituatur ablatum.
550. Análise Lingüística do Σήμερον em Lucaς 23:43. São Paulo, 2001. Centro de Estudos Evangélicos, São Paulo, 2002.
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