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“Eu só entrei em depressão depois de ter resolvido quase todos os meus problemas. […]”
Obra: O demônio do meio-dia: Uma anatomia da depressão. 2. Colapsos. Companhia das Letras, 2018, São Paulo. Tradução de Myriam Campello. De Andrew Solomon (USA/New York, 1963).
Quando Solomon sofreu um pequeno colapso no último ano de faculdade em uma viajem pela Europa, com três noites seguidas sem dormir e uma sequência de comportamentos estranhos em torno de demonstrar incapacidade de realizar coisas que fazia normalmente (p. 41), viu-se em uma situação aparentemente sem explicação plausível.
O escritor até então estava a experimentar “uma vida boa” de maneira que era “grato por ela” (p. 39), lembra face aos antecedentes, onde reconhece que tinha problemas pessoais bem encaminhados, sobretudo em reação a seus pais que bancaram a viajem que seria dos sonhos, pelo Velho Continente, mas algo “terrivelmente confuso e desestabilizador” aconteceu se sentindo deprimido justamente ao se dar conta que até então não aparentava em desordem.
Uma pequena aparição do demônio do meio-dia se deu com Solomon quando “todas as desculpas para o desespero tinham sido exauridas” (p. 38). Aqui me lembro da advertência que escutei do amigo psicanalista em 2008, quando eu me sentia bem melhor após ter perdido meu pai no ano anterior, enquanto tinha no histórico o acúmulo da superação de dois transtornos e duas regressões. Nunca fui diagnosticado, mas não esqueço do alerta; “todos deveriam estar capacitados para serem vigilantes aos primeiros sinais em si mesmo e nos outros”, também dizia quanto à importância da prevenção.
No viés freudiano, aqui penso, onde se olha para o passado na tentativa de explicar as raízes de um problema como a depressão, o autor voltar o olhar para o passado em meio a dificuldades naturais de precisão acerca de registros da infância, e chega a considerar o tipo de parto em que nasceu, enquanto reconhece que suas lembranças “estranhas e não organizadas” dessa época remota indicam memórias “quase todas felizes”. Lembra também de uma hipótese, suscitada por um psicanalista que o acompanhou, em torno de ter sofrido “abuso sexual juvenil” (p. 39). Solomon recorda de seu estado confuso no período do ginásio, quanto ao senso de sexualidade, tempo seguido por “alguns anos de incerteza” entre “envolvimento com homens e mulheres” (p. 40).
O estranho colapso nervoso que passou durante a viajem foi seguido por um choro de alívio quando foi recebido pelos pais no aeroporto. Sentiu-se “completamente estúpido” por ter estragado sua grande viajem de verão. Após o insólito episódio, voltou a se sentir feliz, desta vez estudando na Inglaterra onde a única tendência depressiva que percebeu foi uma certa nostalgia (p. 42), mas seu mundo quase perfeito, na força de seus 25 anos de idade, começou a ruir a partir da notícia de que sua mãe fora diagnosticada com câncer no ovário; dois anos depois ela faleceu (p. 43).
Solomon passou pelo problema da perda de identidade (p. 44) junto com a anedonia, penso aqui em termos sucintos ao que relata nesta parte da obra. Sofreu em seguida uma crise nos rins, desentendeu-se com o seu pai e foi reduzindo cada vez mais o ritmo de trabalho (p. 46). Em uma festa conseguiu disfarçar seu estado rumo a depressão (p. 47), mas ao chegar em casa o processo se intensificou durante semanas em um mergulho de passagem para o desmoronamento; ficou inábil em realizar tarefas do cotidiano e experimentou ansiedade extrema (p. 48). Tornou à analista e concordou no que tinha relutado: tomar remédio. Contou com o arrimo de seu pai e viu como o pânico se torna a única sensação em meio ao Xanax que o fazia voltar ao sono (p. 50).
O que Solomon relata lembra muito o que pude aprender entre 2005 e 2009 quando cooperava com o meu amigo psicanalista em um trabalho de pesquisa e pude conhecer alguns casos parecidos. Em 2006 estava no seminário teológico e tomei conhecimento de um pastor diagnosticado com depressão e, mediante uma comunidade a qual pastoreava que ficou sem entender como um “homem de Deus” poderia sofrer de algo assim, a única coisa que sugeri ao diácono vice-moderador, que me procurou perplexo, foi que ele convidasse um bom psiquiatra para falar aos membros da igreja sobre uma doença que se desenvolve na surdina e pode atingir qualquer um, sem distinção.
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