Imagem: Nobel Prize

“Ma che altro avevo io dentro, se non questo tormento che mi scopriva nessuno e centomila?”
Obra: Uno, nessuno e cento milla. Libro sesto. I. A tu per tu. Edisco, 2007, Torino. De Luigi Pirandello (Italia/Agrigento, 1867-1936).
Uma das experiências de leitura mais intensas que tive durante a pandemia (2020-2021). Este romance foi o mais complexo que pude ler até o momento.
Parei para meditar por alguns dias quando cheguei ao sexto livro, diante desta auto indagação de Vitangelo Moscarda no enfrentamento da constatação do problema da fragmentação da própria identidade, o que me remete a uma pergunta essencial, tão simples e que se revelou hercúlea de ser respondida [610], feita em um momento delicado de minha vida, .
Para começar a lidar com o problema, inicialmente é preciso saber quem realmente somos (será possível saber?), ou seja, é necessário trilhar o caminho da busca pelo autoconhecimento para, quem sabe, oferecermos ao mundo nossa melhor versão (p. 82), e aqui penso lá nos idos de 1997 em que entrei naquele gabinete universitário com aquela muralha de livros. Eu estava munido dos meus dilemas existenciais, e então o psi diante de um espelho de corpo inteiro, pegou o meu indicador direito e o apontou ao meu peito, para em seguida pedir que eu repetisse:
– Quem sou eu? – e então, mergulhei em um silêncio constrangedor. Ele respondeu:
– Vai doer bastante caso você decida se livrar da ignorância e do preconceito sobre si mesmo – respondeu com aquele sorriso amigo. [610]
Moscarda me fez pensar naquele instante diante do espelho com o psi ao fundo, no dilema que começou a fluir dentro mim em um tormento que se revelou, ao mesmo tempo, o que interpretaria posteriormente como o vazio do “ninguém”, não que eu me entendesse assim naquele tempo – um ninguém – mas por conta de uma crise existencial que enfrentava a partir do entendimento da inexistência da definição pela minha incapacidade de responder à pergunta, a denunciar o desprezível do quanto verdadeiramente conhecia sobre minha psiqué, e isso entrou em contraste com o que aprenderia nas sessões adiante, sobre a diversidade de definições contraditórias, feitas por terceiros, acerca de minha pessoa, e que Luigi Pirandello ilustra na expressão “cem mil”.
Uno, nessuno e cento milla foi publicado há cem anos, e o que pensaria o Nobel Pirandello sobre os dias atuais, de juízos imediatos sobre o outro, feitos na ânsia com base no automatismo online de cada dia? O despretensioso comentário da esposa (livro primeiro), sobre um defeito físico de Moscarda (no nariz), o que desencadeou a crise no protagonista acerca da ilusão do que pensava sobre si, ilustra no mundo concreto, por uma banalidade, algo que é uma sombra de questões que penso ingenuamente bem definir acerca da pergunta essencial e que normalmente faz emergir o quanto o conceito que tenho sobre mim pode ser superficial, ou até mesmo vago, enganoso, bem como o conceito que as pessoas têm sobre mim costumam ser imprecisos, quando não distorcidos ou totalmente falsos. Isso ocorre porque o conhecimento sobre uma pessoa corre em uma camada normalmente sociável, sujeita a superficialidades que as máscaras adotadas permitem. O que é compartilhado em redes sociais e na internet em geral apenas potencializa isso. Ora, se já é bem complicado definir quem é determinada pessoa convivendo com ela em algum bastidor, seja profissional ou familiar, o quanto será válida tal definição com base apenas no que ela permite que seja visto em sua socialização?
Um exemplo desta fragmentação de identidade no problema dos “cem mil” que pensam distintamente e acreditam estarem corretos ou terem alguma boa convicção sobre um outro:
Sobre a primeira inclinação, certa vez respondi a um jovem, mestrando de uma universidade estatal, a pergunta que fizera acerca de minha posição ideológica: “austrolibertário”. Ele franziu a testa e lamentou; acreditava que eu era de esquerda, progressista, “humanista” e não um “ultraliberal de extrema direita cujo deus é o mercado”, assim definiu. Este tipo de inclinação, penso, se apresenta como um conjunto de estereótipos que automatizam conclusões não raramente distorcidas em uma heurística rudimentar. Primeiro na associação de “humanismo” com “progressismo”, de uma conclusão errada, foi a outra, e após receber a informação “austrolibertário”, fez 180 graus no juízo para me inserir na “extrema direita” junto com o liberalismo econômico e os fascismo (curiosa associação). O rótulo aciona uma espécie de “dogma”, baseado em crenças políticas e determina um pré-julgamento rude em um processo similar ao que pode ser observado entre fundamentalistas religiosos. Aqui, penso, o pré-conceito encaminha o pensamento automático para concretizar a sentença sobre o outro. Em outro caso, um ateu ficou decepcionado quando revelei minha fé cristã, pois, segundo sua avaliação, eu parecia ser uma pessoa “inteligente”. Aqui há associações distorcidas entre inteligência e descrença em Deus, estupidez e fé religiosa. Contudo, conheci outros ateus não militantes, não beligerantes, que passaram bem distantes deste tipo de dupla rotulação preconceituosa [611].
Sou isso, sou aquilo… sou petista, sou bolsonarista… tímido, extrovertido, misterioso, claro, prolixo, objetivo… simpático, antipático… crente, ateu, católico, protestante, budista, espírita… flexível, rígido… conservador, progressista… eis algumas definições além do registro de minha posição sobre economia com o jovem mestrando, pelo que pude observar acerca de minha pessoa e, certamente, imagino que há variações parecidas que ocorrem quando outras pessoas são definidas em síntese pela massa julgadora que está entre os “cem mil”, tão cheia de certezas.
Então sou muitas coisas na dispersão de conhecimentos pulverizados em dados e achismos. Contudo, é óbvio que ao sair por aí postando em redes sociais uma auto definição, e demonstrando por ações no meio social o que se é, que muitos vão acreditar que seja “verdade”, aceitando sem qualquer questionamento, mas isso é apenas uma crença, na maioria dos casos, ou uma interpretação sujeita a ponderações com base em um conhecimento muito limitado sobre minha história de vida, de maneira que a pergunta ainda permanece sem uma boa resposta. Outras questões são ainda mais comprometedoras diante dos que pensam que é simples definir os outros com as facilidades de nosso tempo quando penso que não é possível saber plenamente certos porquês de uma pessoa se comportar ou se posicionar de certa maneira. Há definições no inconsciente de cada pessoa que é desconhecido pela própria e que pode influenciar suas ações. Nem ela mesma sabe. Também não é possível saber se a pessoa está representando pela máscara social, ou sendo de verdade aquilo que afirma que é e faz, tampouco se pode ter razoável ideia quanto ao que seja considerado válido para definir sua identidade. Nessa teia de incertezas, aqui me lembro do meu mentor da juventude:
– A vida sendo um teatro, será possível vivê-la genuinamente além do palco?
A ilusão de definições sobre um outro não é exclusividade do universo dos “cem mil”, mas se torna ainda mais dramática quando se tenta lidar com o próprio ego, a denunciar a ignorância sobre si mesmo. Penso sobre o envolvimento de Pirandello com o Partido Fascista em 1925 e no rompimento em 1927. Será que nesse ínterim ele começou uma crise sobre o que pensava acerca de si mesmo e a materializou neste romance? Será que o grande poeta, dramaturgo e romancista mergulhou em uma crise ao se perguntar como pode acreditar em Mussolini? É possível, quem sabe. O que quero pontuar envolve um auto questionamento que pode ser feito diante de algo feito que depois julgo ter sido infeliz ou estúpido e o quanto essa pergunta provoca o questionamento sobre o quanto conheço acerca de minha identidade ou até mesmo que é impossível sabê-la, conforme uma linha de interpretação do romance.
610. 07/11/2025 22h15
611. 06/06/2025 22h16
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