Imagem: Wikimedia Commons

Jasão e Medeia (1907),
de John William Waterhouse (1849-1917)

“[…] A vida do par se estagnaria se permanecesse constantemente simbiótica.[…]”

Obra: Medeia: A Redenção do Feminino Sombrio como Símbolo de Dignidade e Sabedoria. Terceira Parte: O espelho escuro. “Se não me abandonares, também não te abandonarei”. Cultrix, 2017, São Paulo. Tradução de Margit Martincic e Daniel Camarinha da Silva. De Olga Rinne (1946-2011).

Olga Rinne abre o tópico questionando se seria possível ver o encontro de Medeia e Jasão de forma mais positiva, quanto às juras de amor que se propõem a refletir uma unidade capaz de superar todos os obstáculos (p. 119). Neste ponto, uma simbiose que pode caracterizar um casal e ganha sentido de segunda oportunidade mediante carências não resolvidas na infância e na juventude, dentro de uma única hierarquia que uniu suas respectivas hierarquias das necessidades fundamentais, a compensar “os medos não superados e as experiências anteriores de sofrimento”, de maneira que dois seres humanos formam “uma unidade numa só pessoa, para fins psicológicos” (p. 120).

Para que se tenha um bom relacionamento amoroso é preciso “um equilíbrio de equivalência na relação do par”, dispondo de um “termo médio entre comunhão e autonomia entre ‘nós’ e ‘eu'”, superando por um lado o receio da dependência e da perda da individualidade, e por outro, o medo da solidão e do isolamento; a unidade desta simbiose não deve descartar o respeito à individualidade de cada um dos parceiros, argumenta, complementando com o que está no trecho (p. 121) desta Leitura. Tal equivalência não significa que os parceiros devam ter as mesmas condições de origem, instrução ou funções sociais, mas que “sejam do mesmo nível quanto à maturidade, a competência e o sentimento do próprio valor, e também que se apreciem mutuamente da mesma forma” (p. 122).

Quando a autora aponta que os papéis tradicionais dos sexos na nossa sociedade (convém pensar: machista, patriarcal), provocam oposição ao desenvolvimento harmonioso do casal nos moldes do parágrafo anterior, penso de forma mais intensa quanto esta questão está no cerne de todo relacionamento afetivo e costuma ser negligenciada pela imposição de uma correria, na incapacidade de parar e observar o parceiro acima da rotina normalmente regida pela polarização dos papéis. Enxergo no mesmo sentido da autora quanto ao que resulta: uma separação do mundo sentimental dos parceiros, o que dificulta sua conexão emocional, resultando assim em uma relação automatizada que não combina adequadamente os problemas comuns e importantes, além do que os papéis tradicionais costumam indicar (p. 122).

O esvaziamento de Medeia em relação a Jasão, face à primeira fase do mito marcado por intensa paixão (p. 123), ilustra essa desilusão pela falta do desenvolvimento harmonioso, problema que não é necessariamente irreversível, na visão da autora, se não forem criadas mais ilusões, além do sufocamento que muitas mulheres passam quando temem o abandono, não abrindo mão da “fantasia do amor sempiterno” (p. 124), quando sentem os primeiros sinais da necessidade de independência e autonomia em uma relação, o que acaba se convertendo em um certo “heroísmo pela abnegação” e pelo “espírito de sacrifício”, em um ideal cultural que reflete um aspecto “enormemente destrutivo” a considerar a tragédia em que se encerra o mito (p. 125). Muitas mulheres na atualidade costumam seguir este roteiro de “sacrifício”?, ou nas palavras da autora: “Não corresponderá esta imagem ainda hoje ao eu ideal de muitas mulheres?” (p. 125)

Esta obra passou a ocupar um destaque em minhas experiências de leitura. Talvez se possa considerá-la mais para mulheres, impedindo-se de ir além das convenções que prejudicam uma melhor compreensão do tipo de sociedade que define convenções que impactam os gêneros.

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