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“[…] se esses comportamentos estiverem prejudicando essa interação social, ou causando danos familiares, ocupacionais ou sofrimento pessoal, é sinal de que um limite foi excedido.”

Obra: Dependências não químicas e compulsões modernas. Série Dilemas Modernos. Como reconhecer uma dependência não química? Atheneu, 2016, São Paulo. Editores: Marcelo Niel, Alessandra Maria Julião e Dartiu Xavier da Silveira.

“Trabalhar demais, comprar demais, jogar demais, assistir à televisão demais, navegar na internet demais, ter desejo ou fazer sexo demais” são comportamentos citados pelos autores que se associam ao conceito de dependência não química (p. 83). Há uma dependência que hoje me chama bastante atenção: a de aplicativos que tornaram o celular um “órgão vital” para inúmeras compulsões sob a disputa pela atenção desmedida de usuários que caracteriza a competitividade das indústrias de TI.

Independente do tipo, há uma questão na dependência que diz respeito ao desafio da prevenção, ou seja, de abordagens clínicas que sejam eficientes para identificar tendências antes que um quadro de vício se estabeleça. Será que estou idealizando demais? Não sei. Penso aqui em ferramentas psicoterapêuticas para conter o avanço de fatores que contribuem para um comportamento de consumo tóxico. Penso em um modelo que capacite à identificação de um sinal de alerta antes do vermelho em uma procura regular ao trato da saúde mental de maneira análoga a ideia de “check-up”, sob certa periodicidade, normalmente realizada mesmo quando está se “sentindo bem” e se submete a exames.

À semelhança do que acontece com um dependente químico (um alcoolista, para tomar como exemplo) sob progressão de intensidade que o tornou subjugado a determinado consumo, não conseguindo mais contê-lo, o dependente não químico assim vive aprisionado, sem discernir um ponto claro para delimitar a fronteira entre o nível de consumo saudável e o não saudável. Como sabê-lo? A maneira objetiva de definir uma métrica consiste na simplicidade de questionar se a frequência de comportamento está causando danos (p. 83). Recordo-me de um senhor de meia-idade, que conheci há 10 anos, que conversou comigo sobre o que estava tratando em relação à sua dependência em apostas de “corridas de cavalo”, vício que devastou sua vida profissional e familiar. Isso posto, sendo a desmedida uma característica intrínseca à natureza humana, juntando-se ao estigma intimamente ligado à vergonha e ao juízo de valor sobre o assim visto como “viciado”, pensar em um problema levado a um conhecimento fora de um ciclo íntimo do adoecido é algo insuportável, de maneira que ficam estabelecidos fatores que dificultam bastante o auto reconhecimento do problema (p. 82).

A quantidade de consumo não define o excesso, e sim o dano ou prejuízo (p. 84), e penso aqui o quanto o termo “frequência” pode ser perigoso na análise de certas exposições, pois além da inviabilidade de definir linhas demarcatórias que possam garantir alguma segurança objetiva no consumo, penso em determinados entorpecentes e produtos que não cabe nem mesmo considerar a experimentação pretensiosamente curiosa e única sob a ideia de ser inofensiva, tais como, por um lado, formas sintéticas muito sofisticadas de drogas mais recentes que têm um poder imenso de impactar gravemente o consumidor no primeiro contato, e por outro, o que pode fazer com a mente uma breve exposição a conteúdo pornô, e sobre este último ponto, pensei quando ouvi pessoas que passaram por este problema, durante os períodos que fiz seminário (2003-2007) e cooperei em pesquisas com o meu psi (2001-2009), e percebi um padrão entre os casos diversos onde fora subestimado o que se consumiu por mera curiosidade, de forma “única”, quando se tornaram dependentes em um curtíssimo processo. Por outro lado, identifiquei diversos que afirmaram ter consumido pornô em algum momento da vida e que não se tornaram “ninfomaníacos” ou “pervertidos sexuais”, contudo, tirando os aspectos de crenças sobre si mesmo, trata-se de algo que não descarta distúrbios, transtornos e outros problemas supostamente “menores”.

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