Imagem: Sextante

Paul T. Mason e Randi Kreger

“[…] pessoas com HCP têm um padrão de comportamento que habitualmente aumenta os conflitos em vez de atenuá-los ou resolvê-los.[…]”

Obra: Borderline. Como conviver com uma pessoa com emoções extremas e retomar o controle de sua vida. Capítulo 1. Alguém que você ama tem transtorno da personalidade borderline ou narcisista. Personalidade de alto conflito (HCP). Sextante, 2025, Rio de Janeiro. De Paul T. Mason e Randi Kreger.

Quem já não se deparou com um familiar ou um colega de trabalho que, diante de uma situação de conflito, costuma sempre aumentá-lo em vez de tentar resolvê-lo? Se houver um histórico desse comportamento, com situações e pessoas distintas, aumenta a probabilidade de ser um caso de personalidade de alto conflito (HCP, do inglês high-conflit personality), algo que pode ser confirmado por um psicólogo. O termo foi desenvolvido pelo terapeuta Bill Eddy.

A importância de saber identificar traços de HCP está na possibilidade de adotar uma forma preventiva de relacionamento para conduzir apropriadamente determinadas situações que potencializam conflitos, sejam no seio familiar ou profissional. No entanto, a HCP é tão-somente um traço e pode ser a ponta de um ice berg porque se trata de um transtorno compartilhado entre pessoas com transtorno de personalidade borderline (TPB) e transtorno de personalidade narcisista (TPN), pontuam os autores (p. 28). Ao cogitar alguém com HCP, então é preciso considerar também a possibilidade de estar diante de um borderline ou de um narcisista.

O TPB se caracteriza por mudanças bruscas de humor, ações impulsivas, medo de abandono real ou imaginário e expressões de amor e ódio ao mesmo tempo. A pessoa com esse transtorno vai do oito ao oitenta subitamente em seu sentimentalismo (p. 23).

O TPN se apresenta em um quadro de auto estima frágil onde o portador tenta escondê-la por meio de um complexo de superioridade, e nesse âmbito se comporta como pessoa exageradamente autocentrada, egocêntrica a exigir privilégios, tratamento diferenciado, especial, de maneira que busca por quem se submeta a seus caprichos, e assim atua por manipulação, e quando não mais lhe interessa ou simplesmente não a atendeu como esperado, passa ao menosprezo e ao insulto (p. 23).

O mais importante diante de um possível caso de TPB ou TPN, é não revelar à pessoa suas suspeitas de diagnóstico (p. 24). Quanto a isso, tive uma ocorrência um pouco antes da pandemia em que suspeitei de TPN em um diretor de tecnologia de uma empresa a qual eu fornecia sistema. O relacionamento ficou insuportável porque o indivíduo passou a me menosprezar e até a me ofender em minha ausência, quando percebeu que não iria funcionar comigo o seu antigo método de constrangimento aplicado sobre os demais programadores que cooperavam em sua gestão e atendiam a suas exigências incomuns, descabidas. A suspeita aumentou quando notei que ele privilegiava quem o exaltasse em reuniões; o critério não era a competência e sim a capacidade de bajulação. Os mesmos colaboradores que o exaltavam, confessavam em off que ele era a fonte das maiores confusões nos projetos de TI da empresa. Para agravar, era da família de um dos sócios e explorava essa condição com sarcasmo. Após entregar minha carta de rescisão do contrato de fornecimento de sistemas, aproveitei que a organização tinha RH, e o cargo direcional era ocupado por uma psicóloga, e revelei a profissional o motivo de minha saída, que envolvia assédio moral, falhas no super ego, exigência de culto ao ego, além dos traços de HCP que eram evidentes em suas constantes tentativas de manipulação, compondo um bojo de problemas psicológicos que inviabilizavam uma relação minimamente saudável e fundamentavam a minha suspeita de TPN. A psicóloga não pareceu surpresa.

Os casos de TPB foram mais comuns em minha trajetória. Quando notei, durante a pandemia, traços do transtorno em um filho de um empresário de contabilidade que trabalhava diretamente comigo na implantação de um sistema,. Mudei a forma de comunicação com ele, mas os conflitos aumentaram. Conversei com o seu pai e descobri uma crença ingênua de que ao lhe dar uma ocupação “de responsabilidade” no escritório, o jovem iria melhorar em relação aos problemas de relacionamento com os irmãos, que não estavam envolvidos no negócio contábil. O resulta é que o jovem encontrou no ambiente profissional mais um campo para expandir sua HCP.

Quando entendi a importância de conhecer os conceitos de TPB/TPN e HCP para agir de forma preventiva, ao identificar um possível caso em um colaborador ou até mesmo em quem ocupa posição de chefia, compreendo a possibilidade de repensar a estratégia que adotei no trabalho para tentar concluí-lo. Quanto à maior complexidade da situação quando a pessoa com transtorno acumula as condições de familiar e companheiro profissional da direção do cliente, como foram os dois casos que ilustrei, penso em escritórios de contabilidade, e deixo o alerta de que isso não é tão raro. Em diversas ocasiões vi o foco do aumento de conflitos na gestão residir em um familiar do proprietário e essa condição costuma se agravar ainda mais pois o gestor normalmente cai em um constrangimento que o deixa inerte, seja para reconhecer a raiz do problema, seja para tomar uma decisão administrativa adequada.

Fato é que negligenciar esses conceitos é a receita para inviabilizar uma mudança positiva na trajetória de qualquer negócio.

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