Imagem: Casa do Saber

Byung-Chul Han

“É uma ilusão acreditar que quanto mais ativos nos tornamos tanto mais livres seríamos”

Obra: Sociedade do cansaço – Nobilis. 5. Pedagogia do ver. Vozes, 2024, Petrópolis. Tradução de Enio Paulo e dos trechos em inglês por Letícia Meirelles. De Byung-Chul Han (Coréia do Sul/Seul, 1959).

A correria do nosso tempo é um dos temas desta obra e ao comentá-la, com certa literalidade em torno do termo “cansaço”, um interlocutor fez um curioso comentário sobre o que entender ser a “atual febre dos corredores de rua”, para em seguida perguntar o que eu penso a respeito.

“Gostaria de poder praticá-la”, confessei. Imagino que a corrida de rua deva ser uma experiência libertadora para o corpo e o espírito, entendo, pelo que observo em pessoas que adotaram esse esporte e parecem tão firmes e concentradas. Talvez muitos a adotaram por modismo, mas não invalida os benefícios. A referência mais próxima que tenho me remete à juventude no Recife (até meados dos anos 1990), onde não era tão comum realizá-la em ruas e sentia-me muitíssimo bem a praticando na Jaqueira e em praias.

Evidentemente não é essa correria que o professor e filósofo de Berlim aborda. Inicia o capítulo a citar Crepúsculo dos Ídolos, obra que me é familiar do mesmo tempo de minha saudosa vida atlética, onde corria demais, em vários sentidos. Todavia, é pelo olhar contemplativo, demorado e lento que se desenvolve melhor a experiência do viver, contra o reagir imediato a todos os estímulos, sem resistir ao opressivo e ao intrusivo, sugerido pela interpretação dada pelo escritor ao marrento filósofo que tanto me perturbou na juventude; eis um ponto considerado por Byung-Chul Han que sintetiza um dos pontos críticos do problema no trecho (p. 39) desta Leitura: a ilusão de eficiência e disposição que se tem com a correria.

Há duas potências, aponta o autor: a positiva, que é a de fazer, e a negativa, do não fazer, mas essa potencia de não fazer é diferente da incapacidade de fazer alguma coisa, pois consiste em um traço essencial da contemplação que beneficia a “ação do espírito” (p. 42). A correria que observo e tento escapar, é tão-somente a potência do fazer que, sendo a única aplicação, resultaria em hiperatividade fatal, um problema que me remete ao que o professor e filosofo lembra ao mencionar o que Nietzsche escrevera sobre os sujeitos ativos carentes da “atividade superior”, a contemplativa que sai da superficialidade da correria, problema típico da mentalidade sob a premissa da atividade computacional, que é incapaz de hesitar e, penso, de ir além da heurística, por mais sofisticada que seja. Na medida em que se corre o tempo todo, não é possível compreender certas nuances ao redor, não se torna viável conhecer melhor o contexto, e assim os que não conseguem parar, nesse sentido, são na verdade “preguiçosos” rolando “como rola a pedra seguindo a estupidez da mecânica” (p. 40).

Na sociedade da correria, saber parar interiormente para a contemplação, em uma “pedagogia do ver”, talvez seja mais importante que ser ativo, impulsivo, intenso, veloz… Essa parada significa ter a possibilidade de “dimensionar todo o espaço da contingência que escapa a uma mera atividade” (p. 40), e aqui penso em quantas vezes me flagro no erro de insistir em um viés mas, às vezes, por misericórdia divina, percebo que as melhores soluções para os problemas mais complexos do cotidiano começam com uma boa parada, como a que ocorrera com um colega desenvolvedor:

– Vamos dar uma parada?, preciso não fazer nada por alguns minutos, esvaziar minha mente e voltar melhor – dito sob um crítico olhar de quem estava exausto em um expediente matinal de sábado.

– Vamos perder 30 minutos?, é isso mesmo?

– Sim, sugiro perdermos para, talvez, resolvermos isso até meio-dia.

Após uma parada de 30 minutos, com uma boa respiração diafragmática, na busca de um silêncio profundo, consigo escapar daquele ritmo que confunde pressa com agilidade e, contemplando mais um pouco, repouso em meditação… Vem em seguida um repensar melhor, leve, livre, de maneira que supera uma visão fechada de um problema de lógica sobre algo outrora misterioso que parece ter o potencial de consumir o restante do juízo para o dia.

É parando diante de algo crônico que se começa a caminhar na direção certa.

Corre-se tanto na vida…

A sociedade sob uma “dispersão geral” (p. 41), fez da correria o padrão e então pensei no que aponta o autor a soar como um alerta pessoal que me fez apetecido pelo exercício da parada, mais inspirado no budismo do que na experiência de leitura desta obra. Desacelero, paro, tento esvaziar a mente, procuro não fazer nada e medito. Desligo-me de tudo que me faça voltar ao modo do cotidiano profissional. Isso posto, a correria no que chamo de “automatismo do cansaço” parece ter se tornado uma regra perene, e pode não ser nada além de um autoflagelo subliminar, pelo menos quando se deseja demonstrar intensidade ao mundo, sem cultivar a parada, e sem se dar conta de uma forma de viver mais em função da superficialidade inerente ao que os outros pensam.

Por fim, pensei por um instante na literalidade do meu interlocutor sobre a corrida de rua. Quando apenas devotada por modismo, talvez possa também ser uma espécie de metáfora – quiçá advinda do inconsciente coletivo – alusiva ao paradigma da insana pressa que dominas as pessoas no nosso tempo.

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