Imagem: London Museum

"ADAM DE SARUM ; Monday, March 25, 1303 (Twyne iv. 35).
Memorandum that on Monday, the feast of the Annunciation, in the 31st year of the reign of King Edward [...] Adam was in the High Street towards East Gate, and was playing at ball with the others, there came Thomas de Keting of Ireland, clerk, and Walter le Whit, clerk, of Ireland, and Willock, attendant (garcio) of David de Bren of Ireland; [...]"
Obra: Records of Mediaeval Oxford. Adam de Sarum; Monday, March, 25, 1303. Coroners’ Inquests, the Walls of Oxford, Etc. New College, Oxford, 1912. Editado por H. E. Salter, M.A.
A pintura é do Museu de Londres e retrata um jogo de bola sendo praticado no século XIV.
Hoje pude apreciar um pouco da história do “futebol” e fui parar na Idade Média ao conferir esta obra do New College, de Oxford.
Sobre o nascimento do futebol moderno, cujo berço está na Inglaterra, na segunda metade do século XIX, assisti recentemente à série The English Game, drama com licenças poéticas em relação aos primeiros times que venceram a Copa da Inglaterra, tendo na melhor parte a inspiradora trajetória de Fergus Suter (1857-1916), que se tornou o primeiro jogador profissional da história. A série também retrata uma era de atletas amadores: de um lado ficavam os futebolistas ligados à aristocracia britânica, e do outro trabalhadores de fábricas que sonhavam vencer a competição como forma de reavivarem suas esperanças em um tempo de tensões econômicas com os patrões. Foi tocante perceber como o amor pelo football entre ricos e pobres, empresários e proletas, foi intenso naquele tempo, a contrastar profundamente com o que observo na atualidade no comportamento de atletas que perderam boa parte do brilho desportivo, na medida em que foram institucionalizados como instrumentos de business.
Ao lado desta obra de Oxford conferi o tradicional livro A busca da excitação. Desporto e lazer no processo civilizacional, de Norbert Elias e Eric Junning. Elias e Junning retratam um detalhe que me chamou a atenção: O “jogo de bola” ou o antigo “futebol” era muito violento, sendo agregado lentamente em um espontâneo processo social que resultou no surgimento do futebol moderno, a considerar o contexto inglês como parte do processo civilizatório. Na Idade Média, o “jogo de bola” estava associado a uma forma bruta de lazer entre adeptos que o futebol moderno foi combatendo desde o seu nascimento. As regras no futebol antigo eram variadas por localidade; praticavam-se caneladas, as agressões eram diversas, o senso de posicionamento e troca de passes praticamente inexistia. Entendi, pelas leituras, que a formalização das regras pela Football Association (FA), fundada em 1863, foi consequência de um novo estágio que essa prática de lazer atingiu na população, tanto do ponto de vista da técnica, como dos aspectos mais agressivos que foram superados.
No trecho desta Leitura, um registro judicial de uma ocorrência: trata-se da vítima Adam de Sarum, encontrado morto, visto pela última vez na High Street “jogando bola com outras pessoas”. Adam não foi morto pelo “jogo” em si, aponta o registro, mas a expressão “jogando bola” de 25/03/1303 em Oxford, é um das mais antigas a fazer referência ao que pode ser chamado de “futebol medieval”.
Por fim, obviamente, o antigo “futebol medieval” jogado em ruas e campos não pode ser considerado o mesmo esporte em comparação com a modalidade moderna, mas possui estreita ligação com tradições que atravessaram séculos e alcançaram o período da primeira Revolução Industrial, tais como a da “Terça-Feira Gorda” em Londres, mediante o registro de William Fitzstephen, biógrafo do arcebispo inglês Thomas Becket, que escreveu sobre um “jogo de bola” que fora realizado na celebração por volta de 1174, 129 anos do caso Adam: “Após o almoço, toda a juventude da cidade foi aos campos para participar de um “jogo de bola”. Os alunos de cada escola com sua própria bola, assim como os trabalhadores da cidade”, afirma o autor, conforme matéria do Museu de Londres (link da imagem).