Imagem: ETCO

Marcílio Marques Moreira

“[…] para Maquiavel não havia um bem, por maior que fosse, que pudesse ser avaliado como um bem sem restrições.[…]”

Obra: Sobre Maquiavel. O pensamento político de Maquiavel. O bem e o mal para Maquiavel. Editora Universidade de Brasília, 1980, Brasília. De Marcílio Marques Moreira, em O Príncipe. Comentado por Napoleão Bonaparte (Córsega/Ajaccio, 1769-1821). Martin Claret, 2002, São Paulo. Tradução de Pietro Nassetti. De Niccolò di Bernardo dei Machiavelli (1469-1527).

Antes, sobre Marcílio Marques Moreira, esta foto me lembro no tempo em que tinha meus 16 anos. Ele foi o ministro do pós-furação Zélia Cardoso, a ministra do confisco da poupança e dos fundos que levou muitos ao desespero, cujo plano econômico terminou em fiasco. Os que nunca viveram sob uma hiperinflação não fazem ideia do caos que esse problema econômico impõe.

A inflação era o assunto de todos na minha adolescência e eu queria entender as razões, fascínio que provocou minha decisão pela graduação em economia em 1994, quando o mais óbvio era seguir o caminho de ciências contábeis, em se tratando de um menino que ficava, na mesa da sala, pelo menos desde os 14 anos, brincando de identificar o “débito” e o “crédito” em relatórios que sua mãe trazia para analisar em casa, além do primeiro programa que fez aos 15 anos para o departamento contábil da empresa.

É curioso como as lembranças veem à tona quando hoje revisitei este texto do ex-ministro da Fazenda, pois a primeira vez que o li foi inesquecível por conta do que aconteceu após uma prova em 1995, aplicada pelo senhor que se tornaria meu mentor nos três anos seguintes. O trecho foi o mais sensível, pois rendeu uma longa discussão com o professor. Nossa primeira conversa mais intensa foi difícil, pois eu o acusei de ser um “ultra-relativista” na abordagem que fizera pensando no famigerado dito de que “os fins e justificam os meios” em sala de aula, quando descobri 15 anos depois que está mais para uma paráfrase em torno de uma tradução [563]. O problema maior foi que em 1995 eu confundi o mensageiro com um precário entendimento que tive da mensagem. Fui um jovem polêmico, idealista, um tanto convencido e contundente nas opiniões, por isso não reagi bem às críticas que recebi por minha resposta empolgada na prova, especificamente relacionada com o trecho desta Leitura.

Aos 20 anos eu não conseguia compreender que Maquiavel estava discorrendo sobre a política como ela é no pragmatismo de quem lida com o poder, tocante aos meios que a fazem funcionar de fato, e não como algo ideológico, como gostaria que fosse. Eu não conseguia enxergar que em política o oportunismo e o senso de perigo “sobrelevam a julgamentos sobre a intenção interior ou a pureza formal das ações concretas”, e que nesse bojo não há um bem absoluto ou um mal “incontrastado” (p. 22). Bem e mal não são intocáveis na política de fato, onde pesam as circunstâncias. Para Maquiavel, conhecer a dinâmica dos fenômenos objetos da política, assim como a essência do “exercício de escolhas”, vai diferenciar os políticos bem sucedidos dos que ficam pelo caminho. Não há essencialmente lado e sim uma postura a ser tomada de acordo com o contexto em favor do objetivo maior: preservar-se no poder.

Hoje, penso, fico observando pessoas que seguem políticos crendo que eles representam seus valores…

Somente em 2003 li pela primeira vez O Príncipe, a partir desta edição popular. Outra coisa inesquecível foi que saí dando risadas da livraria ao me deparar com o texto de apresentação, justamente o que marcou o início de uma grande amizade após uma lição que um mestre dera em um certo jovem arrogante.

563. 14/09/2023 21h53

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