Imagem: London Speaker Bureau

“A ironia é que o indivíduo liberal foi erradicado não pelos camisas-pardas fascistas nem pelos guardas stalinistas.[…]”
Obra: Tecnofeudalismo. O que matou o capitalismo. 7. Fuga do Tecnofeudalismo. A morte do indivíduo liberal. Planeta do Brasil, 2025, São Paulo. Tradução de Érika Nogueira Vieira. De Ioannis Georgiou “Yanis” Varoufakis (Grécia/Falero, 1961).
Bela é a forma como o autor apresenta suas ideias, rememorando uma dialética sobre economia que desenvolveu com o seu pai:
“Até hoje, eu invejo o modo como você vivia, pai”, afirma (p. 166).
O pai, Varoufakis assim o define, fora “epítome do indivíduo liberal”, enquanto indivíduo com mentalidade de esquerda; concomitantemente admirava a autopropriedade limitada que o capitalismo possibilita (p. 167), trabalhador de siderúrgica com relativa autonomia que conseguia desfrutar de tempo para viver em família, ler, escrever e refletir sobre a vida e o conhecimento (p.166). A essência de ser liberal vai além do economicismo neste aspecto, o que entendi como algo muito proveitoso para se refletir. Tirando o “de esquerda” (embora eu tenha ideias progressistas), sinto-me um pouco no universo dessa soberania que o autor atribui ao pai.
Varoufakis elabora uma crítica sobre o que está ocorrendo na era online onde o indivíduo é transformado em “marca que será julgada de acordo com sua autenticidade percebida” (p. 167), eu diria, para viver em função do que os outros vão pensar na camada de compartilhamento de dados, consumido continuamente pelo dilema sobre o que deve fazer ou não, passivo em um bojo temperado por formadores de opinião e um tribunal de seguidores com espírito de exceção, dada a ânsia por julgar de imediato tudo e todos. Esse paradigma de transtorno comportamental coletivizado não poderia deixar de atingir a vida profissional e assim se estabeleceu como um molde amplo para que se passasse a perceber a necessidade de submissão.
Fascistas, nazistas e sovietizados de plantão, normalmente cheios de saudosismo comunista, foram então superados no conceito de controle social estabelecido pela vida online, a considerar o contexto no trecho (p. 167) desta Leitura. Pensei aqui em uma ponderação, à mon avis: A vida em sociedade, penso, naturalmente estabelece um modo de convívio em comum, sujeito a regras e juízos, contudo, no mundo das redes sociais isso se tornou muito mais amplo, invasivo, no tocante à soberania de pensamento e ação do indivíduo. Obviamente, viver em sociedade sem uma máscara para ser suportável fora da vida privada, pode ser visto como uma tarefa impossível ou para pouquíssimos lidarem, mas acontece que o mundo dos relacionamentos na celeridade e acessibilidade da internet oferece uma maneira muito mais prática, poderosa e eficiente de se produzir ou de se mostrar superficialmente com ares de profundidade, incluindo a construção de narrativas para a vida íntima, o que faz esse ambiente ser dominado não mais por pessoas autênticas e sim por personagens ou instituições.
Isso posto, Varoufakis conecta as questões da vida online que identificou com o que se fez com o “capital-nuvem”: a derrubada da cerca que possibilitava ao individuo liberal “um refúgio onde se proteger do mercado”, estilhaçando esse indivíduo em fragmentos de dados, composto por cliques e algoritmos manipulados, cooptando a atenção, impedindo concentração, tornando esse então ser liberal uma pessoa dispersa, fraca de espírito, dominada, incapaz de pensar além do que as ferramentas tecnológicas oferecem; um ser manipulado, diria até mesmo, devotado a uma vida sem o senhorio de si mesmo, conformado com a castração de sua intelectualidade (p. 168).
Entre os efeitos apontados, dois me chamaram mais a atenção: o déficit de atenção provocado pelo uso massivo de ferramentas online que tornam a vida sob uma correria insana mediante exigência de resposta imediata, posições, tomadas de decisões, tudo em tempo real sobre um ser (humano) que não tem como dar conta em si mesmo., o que pode acarretar em problemas de saúde mental, entre outros. O outro ponto está na perda do senhorio de si mesmo, quando se fica em quase ou total dependência de ferramentas de “inteligência” dita “artificial” que se destacam pela velocidade muito maior de cruzar dados por heurística para fornecer respostas consolidadas. O problema é que esse ser humano deslumbrado, na medida em que vai se envolvendo com essas ferramentas, pode cair na ilusão de desprezar o próprio uso do intelecto, simplesmente abdicando de pensar de forma mais profunda, deixando de exercitar um dos recursos que caracteriza a nossa espécie, sobretudo em temas que atua profissionalmente. Passa a ser um profissional vazio de conteúdo em si, apenas reprodutor de consultas que fez em alguma aplicação de “inteligência artificial”. Penso novamente que talvez estejamos a um passo da “abolição do homem”, abordada por C. S. Lewis.
O tecnofeudalismo com esses requintes reforça uma antiga condição que caracteriza a nossa espécie em termos de poder exercido pelo humano: penso aqui quando o autor associa tais requintes ao conceito de “patriarcado”, o que me faz pensar em um sentido para compreender melhor o domínio global de Big Techs que formaram imensos feudos de trabalhadores condicionados, moldados a seus modelos de negócio, presos a um controle feudal financeiro extrator de renda laboral [602]. Nesse mesmo espírito de feudo, são reforçados estereótipos, opressões pré-existentes e “a atração torpe de emoções como moralismo, medo, inveja, ódio que eles despertam em nós” (p. 168).
Este livro, cujo exemplar é da quarta edição, penso, pode ser muito interessante para profissionais de TI , principalmente os que acreditam ter o mundo ao alcance de suas expertises e não se dão conta da vassalagem em que estão envolvidos, considerando a leitura do professor Varoufakis sobre o que está acontecendo com o que é chamado de “capitalismo” e que se tornou outra coisa a qual chama de “tecnofeudalismo”.
602. 09/06/2026 22h00. “O ‘feudocapitalismo’ funciona aplicado a uma estrutura que conserva um conhecido e velho problema dos debates econômicos e sociais, desta vez em escala muito maior: o da concentração de riqueza, agora mais incrementada com uma organização capaz de controlar a extração de renda da força de trabalho. Esse poder que não se baseia no método de lucro tradicional, não depende da relação entre margem em torno de compra e venda, está nas mãos de pouquíssimos “senhores feudais” da modernidade que atuam na “nuvem” da internet”. O recurso humano produz em plataformas que hospedam a oferta de seu serviço e extrai parte da renda do trabalhador que atua como vassalo em um mecanismo de feudo.