Imagem: London Speaker Bureau

“[…] o pós-capitalismo chegou, mas não o socialismo.”
Obra: Tecnofeudalismo. O que matou o capitalismo. 7. Fuga do Tecnofeudalismo. Uma rebelião das nuvens para derrubar o tecnofeudalismo. Planeta do Brasil, 2025, São Paulo. Tradução de Érika Nogueira Vieira. De Ioannis Georgiou “Yanis” Varoufakis (Grécia/Falero, 1961).
No decorrer da leitura desta obra fui pensando que o professor Varoufakis pode ser aquele tipo de homem de esquerda capaz de tornar uma conversa sobre economia e política em algo bem mais proveitoso do que vejo em ambientes pautados por quem se ufana em ser liberal ou libertário, e o mesmo vale para o outro lado, igualmente militante, chato, fanático, com seus círculos de socialistas incapazes de reconhecer publicamente que o preconizado por Marx e seus intérpretes não funcionou e o que restou talvez seja algo na tese de um pós-capitalismo nos moldes de um feudalismo renovado.
A partir de uma linha marxista, e sem se limitar a ela, Varoufakis defende a ideia de que não será suficiente a organização do “precariado” (p. 192, eis um trocadilho do autor com o clássico termo proletariado) para enfrentar a toxidade do domínio pelo capital-nuvem que acabou com o indivíduo liberal [621] e transformou em vassalos digitais trabalhadores que sofrem extração de renda por parte de grandes arranjos de TI, Big Techs que vão acumulando um poderio imenso na sociedade produtiva. Para devolver o “demos à democracia”, o autor defende uma ampla coalização de proletários tradicionais, proletários e servos das nuvens, além de parte dos capitalistas vassalos (p. 192).
O que Varoufakis apregoa é uma mobilização do tipo boicote de massa de usuários trabalhadores do mundo digital utilizando a mesma nuvem onde a vassalagem hodierna se estabeleceu. E aqui pensei, o autor tem proposições que indicam o seu lado de “homem perigoso” aos olhos dos senhores feudais do mundo digital. Faço uso aqui de terminologia ambientada no livro, sem necessariamente compartilhar da ideia de sua verossimilidade. Essa mobilização de massa exigiria – discorro sucintamente – em um sacrifício pessoal mínimo com o efeito exponencial de ganhos pessoais e coletivos. Mínimo em termos pessoais por não exigir grandes transtornos de cada participante enquanto, mediante milhões ou até mesmo bilhões de pessoas no mesmo propósito, tornar-se-ia de grande alcance em termos coletivos, demonstrando aos grandes senhores feudais da nuvem que há uma força capaz de desafiá-los, como deixar de demandar produtos por 1 dia no site da Amazon, fazer greve de pagamento, boicotar empresas com histórico de opressão a trabalhadores e de danos ao meio-ambiente (pp. 193-194), organizar um tipo de Wikileaks do compadrio digital (assim entendi) para escancarar conexões ocultas de “capitalistas-nuvem com agências governamentais e atores nocivos”. Talvez escancarando os segredos mais bem guardados de capitalistas-nuvem, serão desnudados muitos progressistas ou socialistas com “consciência social”, penso. O autor também sugere a promoção de retenção de fundos de pensão com ações de empresas com práticas abusivas de jornada de trabalho, baixos salários, entre outros indicadores de falta de “compromisso social” (usei esta expressão não aplicada pelo autor para resumir a ideia, p. 195),
Talvez muitos que ainda enxergam o mundo pela romantização da economia de mercado possam considerar o professor Varoufakis até como um perigoso extremista de esquerda. O socialismo, à mon avis, é um espectro fonte de problemas ainda mais degradantes para a nossa espécie. O que penso aqui diz respeito ao que o professor grego suscitou quanto à possibilidade de que o poderoso senhorio que se estabeleceu na nuvem, e manipula massivamente a política, “clientes” e “cooperadores”, não é algo absoluto, intocável a seguir um rumo de entronização na história; pode ser abalado severamente e até mesmo superado a depender de ação individual voluntária, coordenada, bem educada, no sentido de ter consciência de problemas provocados por esse senhorio da nuvem em meio a suas comodidades que camuflam coisas como consumismo e disseminação de influências comportamentais que contribuem para causar danos, a começar na saúde mental, algo que repercute nos âmbitos econômico e social.
621. 03/07/2026 21h56
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