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– Divirta-se, Samuel, trate de aproveitar a vida; você precisa viver a vida que seus pais não conseguiram viver – disse-lhe Lidia Evans […]
Obra: O Vento Sabe Meu Nome. Samuel. Londres, 1938-1958. Bertrand Brasil, 2025, Rio de Janeiro. Tradução de Ivone Benedetti. De Isabel Allende Llona (Peru/Lima, 1942).
Samuel é o personagem que mais me despertou interesse neste belo romance que se notabiliza por saltos temporais. Um menino judeu talentoso no violino que se separa da família para escapar do nazismo e se torna um refugiado na Inglaterra após viajar no Kindertransport.
É uma ficção mas não é difícil de imaginar crianças e adolescentes no pós-guerra se descobrindo na orfandade, escutando, de uma forma ou de outra, coisas parecidas com o que Heidi Steiner conta ao menino Samuel sobre a morte de seus pais em campos de concentração, além do encorajamento por aqueles que fizeram o acolhimento (pp. 45-46).
Parei para meditar ao ver uma conexão entre a história de Samuel e as crianças órfãs de Gaza. Além do que está no trecho (p. 46) por lembrança do menino ao que escutara de Lídia Evans, não consigo pensar em como deve ser difícil passar pela fase mais delicada da vida – a infância – e ter a família destruída de forma brutal em crimes de guerra. O que penso é que se trata de uma trágica ironia ver meninos e meninas da Palestina, órfãos por crimes cometidos por um aparato militar do Estado judeu fundado no contexto de uma comoção global que se deu pelas revelações do Holocausto que trouxeram uma multidão de crianças judias órfãs nos campos nazistas.
É muito triste observar que o Estado de Israel comete crimes de guerra na Palestina que provocam danos irreversíveis a crianças, quando a história do próprio Israel está repleta de crimes desse tipo cometidos contra seus descendentes, e nem me refiro aqui às narrativas bíblicas, cuja historicidade é bem duvidosa e envolve atos de genocídio de antepassados judeus na conquista da “Terra Prometida”. Penso em um povo que sofreu e sofre em registros históricos por extermínios e inúmeras perseguições, mas agora tem um Estado que diz representá-lo e destroça a reverência por sua história.
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