Imagem: Brown University

“O monstro do desejo é um inimigo terrível, mas não é páreo para o seu cérebro incrivelmente plástico e poderoso. […]”
Obra: Desconstruindo o hábito da fome. Por que comemos quando não temos fome – e como parar. Capítulo 17. Dia 14: O exercício RAIN contra o monstro. O exercício RAIN. Sextante, 2024, Rio de Janeiro. Tradução de Beatriz Medina. De Judson Brewer (1974).
É um tanto desconcertante, imagino, um conceito baseado em não se identificar com pensamentos, emoções e sensações corporais. Eis o propósito do RAIN (p. 146), acrônimo de recognize, accept, investigate, non-identification, desenvolvido pela professora de meditação Michele McDonald.
O neurocientista autor desta obra (mais uma de utilidade pública) adotou o conceito no contexto alimentar, com uma substituição do termo não se identificar pelo registre.
Aparentemente sem sentido, eis o que se pode conceber acerca do conceito no senso comum, no entanto, o doutor Brewer relata “resultados extraordinários” no uso do RAIN. Basicamente, assim entendi, é um processo em que a distração (ponto em que os problemas alimentares se sobressaem) é neutralizada pelo foco no que está ocorrendo em relação ao desejo e à reação do corpo, de maneira que essa verificação vai se desenvolvendo e as sensações vão se arrefecendo:
Reconheça o desejo que se apresenta. Não finja que não está sendo exposto. O desejo é real.
Aceite e relaxe, não procure se afastar nem tente resolvê-lo ao considerar que é um fato que se apresentou onde você não tem controle. Há duas coisas interessantes aqui: budismo e estoicismo combinados em função de fatores exógenos e reações naturais na forma de sentimentos.
Em seguida investigue, faça uma sondagem sobre o que está ocorrendo em seu corpo nesse momento de exposição: Onde há maior força em sua consciência diante desse desejo? Há inquietude? Sente-se ansioso? Há aperto no peito? O coração se agita? O que está acontecendo em sua barriga? Fica salivando? Quais os sentimentos?
Por fim, a fórmula original orienta a não se identificar com os desejos agora em paralelo com os sentimentos identificados, enquanto o doutor propõe o registro da experiência (p. 147), concentrando-se no aqui e agora. Caso a mente divague, deve-se tornar à investigação sobre o corpo, de maneira que a onda do desejo passa a ser estudada e não simplesmente atendida.
O que está acontecendo comigo não se explica por essa fórmula, pelo menos em uma primeira reflexão. Evidentemente, considero bastante a hipótese de estar enganado.
Fato: simplesmente estou recusando certos alimentos que consumia com prazer. É algo espontâneo a priori, embora corra uma hipótese (bem mais simples e objetiva) sobre efeitos do medicamento (relativamente novo no mercado) que tomo para controle da pressão arterial.
Há outra possibilidade e diz respeito ao foco que desenvolvi em reações de meu corpo através da técnica do mindfulness. Seria um efeito da atenção plena? Penso em café, leite, chocolate, refrigerante, doces, frituras, processados, fígado e carne vermelha em certa quantidade. Quando os consumia até fevereiro, aplicava a técnica da atenção plena nas horas seguintes, e percebi que estavam, de alguma forma, trazendo alguma perturbação ao meu corpo. De fato passei a detectar desconfortos físicos que até então eram imperceptíveis. Essa sensibilidade aguçada acompanha a recusa que venho apresentando sem pesar. Dos alimentos citados, só não foi a zero, enquanto segue caindo, o consumo de carne vermelha, por causa do problema da proteína.
O conceito do RAIN lida com exposição a desejos; é usado para neutralizá-los de forma, entendo, budista, reconhecendo, aceitando e aprendendo acerca de sua natureza enquanto a intensidade declina. O budismo faz a mesma coisa com o sofrimento. A questão é que este tipo de processo não parece ser o meu caso, pelo menos em minhas primeiras buscas de compreensão. Quando exposto a determinados alimentos que sempre me seduziram não consigo mais sentir desejo de consumi-los. É como se algo tivesse apagado ou desligado dentro de mim uma identificação que fazia parte de meu histórico alimentar.
Sinto-me bem e estou distante de chegar a alguma conclusão. Sigo em leituras, consultas médicas e meditação.
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