Ryan Holiday e
Stephen Hanselman

“[…] Viver não é coisa que possamos fazer sem entusiasmo.[…]”

Obra: Diário Estoico. 3 de setembro. Primeiro, um árduo treinamento de inverno. Intrínseca, 2022, Rio de Janeiro. Tradução de Maria Luiza X de A. Borges. De Ryan Holiday e Stephen Hanselman.

Apontam os autores que o termo em grego usado por Epícteto para a expressão “treinamento de inverso” é χειμασκῆσαι (cheimaskêsai) a indicar que o treinamento de inverno se refere a uma preparação rigorosa, sob enorme foco onde “não há brecha para descanso”, diria, distração e dispersão. Para obter o resultado desejado diante do que carece de ser feito, é preciso “dedicar cada segundo e cada recurso na preparação e no treinamento” (p. 315).

Preparar-se para um grande desafio a exigir alto nível de dedicação; “não há férias” e “não há sequer fins de semana”, como sugerem os autores. Seria uma obsessão?, indaguei. Primeiro, penso em um desdobramento natural da busca do aprimoramento a um estado de consciência de atenção plena para o que precisa ser enfrentado como contrapartida inicial, não sendo algo permanente; significa uma fase em que o foco e os esforços são imprescindíveis sob um entusiasmo a compor um sentido existencial. Segundo, o contrário do conceito de “treinamento de inverno” na terminologia estoica consiste na imprudência, na negligência que se traduz na precipitação de tentar fazer grandes coisas pelas quais não houve a devida preparação.

Eis o tipo de visão de propósitos para momentos críticos que surgem e aqui penso no quanto pode ser absurda para a geração que cresceu e se acomodou com as comodidades dos últimos 30 anos e não faz ideia do que significa abdicação, sacrifício e legado, tampouco tem consciência do preço pago por avanços que foram promovidos por gerações anteriores.

Então essa reflexão estoica não tem como fazer sentido para quem não consegue discernir os porquês de uma luta, pois se habituou a correr para a zona de conforto diante do que exige humildade para aprender, desgaste, estresse, disciplina, dedicação e, sobretudo, amor por uma causa. Não será possível experimentar o que se propõe aqui quando se vive para escapar de pressão necessária ao amadurecimento e prefere se voltar a um vitimismo ao se eximir de responsabilidade, tampouco haverá alguma chance de compreensão do sentido dessa filosofia quando se prefere evitar dores físicas e emocionais que naturalmente se dão no enfrentamento, banalizando analgésicos e ansiolíticos, recusando saber o que as próprias fraquezas, carências e frustrações podem revelar no processo de autoconhecimento.

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