Imagem: Stanford Medicine

Anna Lembke

“A dor leva ao prazer com a ativação dos próprios mecanismos regulatórios homeostáticos do organismo. […]”

Obra: Nação Dopamina: Por que o excesso de prazer está nos deixando infelizes e o que podemos fazer para mudar. Parte III. Capítulo 7. Pressionando o lado do sofrimento. Vestígio, 2023, São Paulo. Tradução de Elisa Nazarian. De Anna Lembke (1967).

A Parte III desta obra de utilidade pública versa sobre a “busca do sofrimento”, o que soa absurdo na perspectiva de quem foi convencionado a fugir da dor, seja por analgésicos, seja sedativos e antidepressivos ou por conteúdos de auto ajuda.

A doutora conta a história de Michael. Quando dependente químico decidiu enfrentar o vício para salvar o casamento e nos primeiros dias de abstinência praticava tênis quando então descobriu os efeitos da dor causada por uma ducha fria de manhã cedo após as atividades físicas: “Nas duas semanas seguintes, comecei a notar que meu humor melhorava depois de uma ducha fria […]” (p.134) e assim incluiu a rotina, nos três anos seguintes no tratamento, de se banhar com água gelada por cinco a dez minutos toda manhã e novamente antes de ir para a cama. “Foi fundamental para a minha recuperação”, afirma (p. 134).

O tratamento com água gelada é antigo, remonta aos gregos, lembra a doutora, que faz menção ao scottish shower dos filmes do 007 James Bond; consiste em finalizar o banho com uma ducha fria de um minuto, no mínimo, após um banho quente (p. 135). Porém, o que a ciência atesta sobre essa prática, seja com o corpo quente após uma atividade física ou por uma ducha? A Universidade Carolina, por um estudo, identificou que a dopamina no plasma aumentou 250% e a norepinefrina 530% em dez homens imersos em água gelada por uma hora, com apenas a cabeça para fora. Outros estudos atestaram que humanos e animais sob água gelada apresentaram aumento em neurotransmissores de monoaminas, que regulam o prazer a motivação, o humor, o apetite, o sono e a prontidão (p. 136).

A dor provocada pelo banho gelado proporciona um prazer pela dopamina de forma indireta, potencialmente mais duradoura por meio “da ativação dos próprios mecanismos regulatórios homeostáticos do organismo”, afirma (p. 137). Uma intermitente exposição à dor faz o corpo passar por um ajuste hedônico que pesa para o lado do prazer. Com o tempo diminui a vulnerabilidade à dor, aponta Lembke (p. 138).

Eu cresci ouvindo o mito de que se eu tomasse um banho bem frio com o corpo aquecido demais após exercícios, poderia até causar um derrame, mas foi desconstruído na juventude por um árbitro de futebol que costumava correr no Parque da Jaqueira (meados dos anos 1990) e comentava sobre os benefícios de uma ducha fria logo após um treinamento. Ao voltar a correr, em um horário muito cedo, com temperaturas que deixam a água encanada bem fria (alguns diriam, gelada), logo após a atividade, revivi a experiência do banho frio. Os resultados me animaram a aproveitar a banheira com gelo adicionado para aumentar a dosagem da dor.

Na ciência da hormese, a doutora Lembke menciona a definição do toxicologista Edward J. Calabrese sobre a administração “de pequenas e moderadas doses de estímulos tóxicos e/ou dolorosos, tais como frio, calor, mudanças gravitacionais, radiação, restrição alimentar e exercício” (p. 140) como “respostas adaptativas dos sistemas biológicos a moderados desafios ambientais ou autoimpostos, pelos quais o sistema aprimora sua funcionalidade e/ou tolerância para desafios mais severos” (p. 141). Testes com minhocas expostas a temperaturas acima do ideal, drosófilas em uma centrífuga, casos de pessoas expostas à baixa radiação e os praticantes de jejum intermitente são casos mencionados nesse segmento (pp. 141-142).

A doutora pontua que o exercício aumenta “muitos neurotransmissores envolvidos na regulação de um humor positivo, dopamina, seronina, norepinefrina, epinefrina, endocanabinoides e peptídeos opioides endógenos (endorfinas)” (p. 142), ou seja, o exercício físico em si é um fator de benefício com evidências para a saúde mental e o meu atual interesse na hormese, na dor autoinfrigida, controlada, moderada, é um capítulo novo quando penso em meu histórico, de ter tratado na juventude uma síndrome de pânico com um efeito relacionado a uma experiência traumática na infância justamente relacionada com a dor [616]. Na juventude a decisão de me manter na corrida (até 1998) foi importante para evitar de vez a possibilidade de recorrer a ansiolítico. Hoje o retorno à corrida ratificou um entendimento que se relaciona com a amenização do estresse causado no meio profissional, além de melhorias que sinto na circulação, na respiração e na disposição para realizar tarefas do cotidiano.

Encerro com uma afirmação da doutora Lembke que considero uma bela síntese deste capítulo da obra:

“O exercício tem um efeito mais positivo, profundo e contínuo no humor, na ansiedade, na cognição, na energia e no sono do que qualquer comprimido que eu possa receitar” (p. 144).

616. 18/10/2025 19h27

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