Imagem: Biblioteca de São Paulo

Leon Tolstói

 “[…] não só não se acostumava com esse fato como também simplesmente não o entendia nem conseguia aceitá-lo.”

Obra: A Morte de Ivan Ilitch. 6. Principis, 2023, Jandira. Tradução de Robson Ortlibas. De Lev Nikolaevitch Tolstoi (Rússia/Yasnaya Polyana, 1828-1910).

E quem está preparado para lidar com e eminência da própria morte?, escutei algumas vezes. Pensei em processos que vi no leito de morte onde havia uma vida absurdamente renovada por uma espiritualidade que transcendeu a ideia de vitalidade que pude imaginar.

Ivan Ilitch está sob a fase inicial da perspectiva da morte, de que ela está chegando e entra em pânico (p. 57). A morte… tão dada aos outros como se fora algo alheio, mesmo sabendo que está na mesma condição.

Este romance galga por um drama sobre a desilusão acerca do que estava (na verdade parecia estar) indo bem, passando pela angústia até se esvaziar da própria ideia da morte [654]. Ivan Ilitch e sua família estavam “bem”, seguiam “sem mudanças, e com a vida fluindo agradavelmente” (p. 40). O personagem central representa um momento da existência que muitos não conseguem deixar: em torno da segurança que imaginam ter acerca de uma vida de estabilidade e certezas que apreciam como se não fossem tão frágeis.

No meio religioso onde passei parte de minha vida, Ivan Ilitch estaria para aquele tipo de ateu praticante bem disfarçado na fantasia de crente, muitas vezes visto como “abençoado” a dar testemunho não para engrandecer o que afirma crer, mas para um autolouvor velado à ostentação, cuja fé não resiste ao encontro do trágico e assim se desmonta em aspectos intangíveis da vida.

No âmbito ateísta militante – embora vi alguns, sobretudo os não militantes, lidando até melhor do que religiosos com essa expectativa -, o personagem de Tolstói refletiria um tipo que também se esfarela quando descobre estar diante do que tanto acreditou (e pregou como um crente): a morte, quando então cai em si sobre o que tanto defendeu como fim de tudo. E esse “fim” se revela em um vazio insuportável.

E entre os que planejam a vida pelo que julgaram essencial, que trabalharam o bastante para “garantir o futuro”, convictos de que possuem certos controles que excluem a espiritualidade e não resistem a um simples teste de vulnerabilidade no mundo real quando testados na imensidão do incontrolável na forma de um problema que devasta todo a segurança que acreditavam ter com suas reservas, posses, influências… O que sobraria além do desespero?

Talvez seja na consciência do encontro com a morte que a plenitude da vida possa florescer além da superficialidade que até então se viveu no apego ao que nada significa para a alma.

654. 24/05/2026 10h00

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