04/11/2025 22h14
Imagem: France 3

“[…] Entre les basses collines, il n’y a rien que le Fond du Puits.
Il se demande s’il s’en sortira vivant.”
Obra: La Langue des choses cachées. L’Iconoclaste, 2024, Paris. De Cécile Coulon (France/Saint-Saturnin/Puy-de-Dôme, 1990).
Cécile Coulon faz arte e não entretenimento, e isso, à mon avis, significa produzir sem se moldar pela expectativa que se possa ter da reação do público.
La Langue des choses cachées conta, em um estilo de fábula, coisas indecorosas de segredos da natureza humana em uma profundidade onde as palavras não conseguem alcançar. À francesa, sutilmente breve e ao mesmo tempo sem pressa em um encontro além da obviedade em uma junção de almas (eis a melhor forma de se experimentar…) Coulon navega no que me apraz, então chega a águas um tanto desconhecidas para muitos leitores e aborda uma forma de expressão que se encontra em omissões que se dão em conversas, em lugares e em corpos. Falam marcas, cicatrizes, sinais, sussurros, tudo o que está oculto, em um silêncio de temor, em uma omissão ardilosa, em um olhar com segundas intenções ou tentando esconder algo, em gestos emblemáticos – e por que não pensar? – em tudo que há auto acusação que apenas quem tem sensibilidade para perceber pode “ver”, “ouvir” e contar.
Esta obra me fez pensar em um velho amigo que vem diariamente aqui conferir o que ando escrevendo (ou revelando subliminarmente?) e costuma dar risadas com o que chama de “arte de permanecer oculto na própria revelação”, como Sartre certa vez se referiu a Kierkegaard ou no que seu velho provocador doutor Freud costumava pensar. Quantas vezes esse velho amigo me disse que considerava mais tudo aquilo que eu não lhe falei, contudo, neste romance, quanto a esta arte de escutar o não dito e ver o não visto, Cécile Coulon faz uma espécie de hipérbole com toques de misticismo e requintes de crueldade a traduzir uma linguagem perturbadora que há dentro de nós, diante de ambiguidades que lutamos para esconder. Não é por acaso que vi alguns comentários entre franceses que revelam certo temor diante da leitura e, neste ponto, penso, a autora alcançou o que entendo ser o ápice da arte da literatura que penetra em nossos segredos mais “difíceis”, para usar um eufemismo.
Meu amigo, aí está um romance que recomendo a ti, que tanto gostas de tocar fogo no parquinho…
Como a escritora francesa que admiro conseguiu narrar tudo isso? A partir do drama de um jovem que herda da mãe o ofício de curandeiro, e então vai a um leito de uma criança em uma aldeia de Fond du Puits, distante, afastada, para reeditar o que sua mentora deste misterioso e suposto poder fizera, quando então se inicia uma experiência intrigante que não poupará ele e os habitantes do remoto lugar (p. 16).
Estou começando a entender porque Cécile Coulon prefere experiências de isolamento com os pés na terra, correndo, andando por aí, por vales e montanhas…
03/11/2025 22h18
Imagem: Jacobina

“Fui morar na floresta porque desejava viver deliberadamente, enfrentar apenas os fatos essenciais da vida, e ver se conseguia aprender o que ela tinha a ensinar, em vez de descobrir só na hora da morte que não tinha vivido.”
Obra: Walden, ou A vida nos bosques. Onde vivi, e para que vivi. Edipro, 2020, São Paulo. Tradução de Alexandre Barbosa de Souza. De Henry David Thoreau (EUA/Massachusetts/Concord, 1817-1862).
Thoreau, o homem que deixou a civilização e foi viver sozinho na floresta.
Esta autobiografia me fez repensar o conceito de solidão, quando li o poeta e naturalista norte-americano afirmar que na experiência radical a que se submeteu, face ao isolamento de seus semelhantes, encontrou benéfica companhia na própria natureza, no “tamborilar das gotas” e de cada som e visão ao redor da casa que construiu no meio do mato com visão para um lago (p. 145).
Outra definição curiosa do autor é que encontrou na solidão (aqui em relação aos humanos) uma “boa companheira” e, logo em seguida, argumenta que “ficamos quase sempre mais sozinhos quando estamos entre os homens” (p. 148). Neste ponto, penso o quanto muitas vezes é possível se sentir só quando se está bastante acompanhado. Quando eu trabalhava como seminarista, um pastor confessou o quanto se sentia muitas vezes solitário, embora cercado por tanta gente no seu concorrido gabinete. Lembrei-me também do sermão “A solidão de um pai”, do saudoso pastor Guimarães, da Capunga, que me deixou bastante reflexivo sobre o quanto um chefe de família, e aqui eu faço uma releitura para “o pai” que pode ser “a mãe”, “o irmão mais velho”, ou seja, o líder da família que acaba isolado quando cai em seus ombros a função de tomar decisões difíceis e muitas vezes não é reconhecido.
Outro caso que recordei nesta experiência de leitura se deu por um amigo o qual seu terapeuta o chamava carinhosamente de “124”: ele confessou sua solidão até mesmo entre familiares mais próximos quando era comum escutar que as pessoas tinham desinteresse e até medo de conversar com ele, pois supostamente as fazia sentir ridículas, no entanto, junto com seu terapeuta, descobriu que o problema tinha relação direta com a afirmação de Thoreau quanto a sociedade ser “banal demais” e que os encontros ou interações enquanto breves, costumam não acrescentar valor (p. 149), e aqui, penso, sobretudo a quem não está disposto a isso e prefere se limitar, enquanto despreza quem busca o amadurecimento intelectual.
Logo adiante Thoreau afirmar que a solidão “não se mede em milhas como o espaço entre um homem e seus semelhantes” . A ocupação do trabalho faz com que alguém sozinho não se sinta solitário (p. 149). Faz sentido, pensei, pelo menos em minha experiência de trabalhar sozinho, mas não me sentir solitário. Quando estou escrevendo ou programando, sinto-me de alguma forma “acompanhado” por ideias, sentimentos e reflexões. Neste ponto, penso na solidão como um vazio existencial, na ausência do cultivo de pensamentos que desenvolvam o espírito.
É evidente que a interação social é importante para o desenvolvimento humano, no entanto, a questão é o quanto essa interação cumpre esse propósito em uma sociedade que celebra o besteirol e o desprezo pelo conhecimento e e pela sabedoria.
Por fim, penso em um conceito ainda mais provocante do homem que decidiu viver isolado dos semelhantes em um estilo o qual definiu como integrado à natureza: a medida em que o ser humano se desprende das banalidades, deixa de estar apegado às coisas vãs que enchem a agenda do dito mundo civilizado, tornando assim sua vida mais simples, “as leis do universo lhe parecerão menos complexas, e a solidão não será solidão, nem a pobreza pobreza, nem a fraqueza fraqueza” (p. 344).
02/11/2025 09h27
Imagem: ADAA

“Uma das crenças ocultas mais poderosas que está por trás da preocupação é o poder de controlar tudo em sua vida.”
Obra: Livre de ansiedade. Capítulo 7 – “Sim, mas e se…?”. Transtorno de ansiedade generalizada. Artmed, 2011, Porto Alegre. Tradução de Vinicius Figueira. De Robert L. Leahy (EUA/Virgínia/Alexandria, 1946).
Como um sistema tóxico de atendimento terminou em Mateus 6.25-34
(e em uma confissão de mudança de fé)
por Leonardo Amorim
Nesta segunda abordagem com cliente contábil (C1) sobre o tema da ansiedade, recebi dois convidados no Zoom: um seminarista e uma diaconisa da igreja onde meu interlocutor atua como parte da liderança.
Desconfio que tudo começou no final de um atendimento quando eu disse que um novo sistema de para seu escritório contábil parece ser um perigoso impulsionador de ansiedade generalizada entre clientes, colaboradores e a direção.
O problema é que o aplicativo na nuvem, supostamente dotado com “Inteligência Artificial (IA)”, após tentar responder a demanda no WhatsApp com material da “árvore de conhecimento”, caso o cliente informe que não teve sua necessidade resolvida, sua suposta “IA” então aciona em cadeia os contatos humanos disponibilizados em regime de revezamento (é preciso ter um plantonista nesse modelo), até conseguir concretizar, por diversos canais (SMS, WhatsApp, telefones, e-mails e até redes sociais), colaboradores e o próprio mandatário do escritório, independente do expediente estar aberto, porque, segundo crê, é um “diferencial”, mas na prática o sistema está trazendo muito desconforto para colaboradores enquanto incentiva mais ansiedade não adaptativa em clientes por dispor atendimento contínuo sempre de urgência desmedida.
Dada sua intensa vida religiosa na confissão batista tradicional, ao ser consultado sobre o que penso do modelo, usei um termo com viés teológico para tentar traduzir o potencial transtorno nos recursos humanos e assim fiz uso de uma linguagem familiar: “reflete a mentalidade do dono do escritório de estar sempre disponível a tudo e a todos, acometido da ‘síndrome da onipresença'”, afirmei. Junto com as referências que fiz de psicólogos e psiquiatras, com destaque ao capítulo 7 desta obra do PhD Leahy, passei a passagens dos Evangelhos e depois à obra Jesus, o maior psicólogo que já existiu, de Mark W. Baker.
A conversa parece ter despertado nele algum interesse maior, além de um sermão que ele dera na igreja baseado nela, motivando o incomum agendamento que foi realizado em uma manhã de sábado e levou cerca de duas horas.
09h00 – Agendamento (C1)
Abertura
Para evitar mal entendido [481], fiz uma breve apresentação contando minha passagem pela denominação batista, a começar do final da adolescência (1990) até me tornar seminarista (2003-2007), enquanto cooperei com outras confissões (episcopal anglicana e presbiteriana) em encontros de jovens e de casais (2000-2007), quando então finalizei que, após deixar a denominação (2007 [482]), em termos teológicos e espirituais, atualmente estou mais próximo da fé católica romana do que de qualquer outra confissão.
Evidentemente, precisei enxugar bastante uma conversa tão longa salva na descrição do Zoom e aqui destaco o que considerei como pontos de maior reflexão:
Leonardo: Bom dia! Prezados, eu quase pedi ao pastor Abdoral para me representar nesse encontro.
Diaconisa: Quem é o pastor Abdoral?
Cliente: É outra pessoa que ele diz que há dentro dele, uma longa história, irmã…
Diaconisa: Como assim? Uma incorporação? Baixa um santo nele é? (risos)
Cliente: Não, irmã, é um negócio aí de “heterônimo”, não é nada espírita, viu?, depois te conto…
(risos)
Cliente: Léo, então, desde quando você falou que meu novo sistema de atendimento lá no escritório é “tóxico’ e eu sofro de “síndrome da onipresença”, fiquei muito pensativo. O que mais me incomodou não foi isso. Foi a palavra que você me entregou naquele dia sobre Mateus 6.25-34, quando disse que os que mais idolatram a ansiedade hoje são os crentes chamados de “evangélicos”, no sentido de desejarem sempre mais e mais progresso material, ansiosos para que Deus resolva suas picuinhas e necessidades mais vãs como se o universo girasse em torno disso, e quando disse no final que os maiores ateus então dentro das igrejas apenas pelo interesse de obter prosperidade econômica, zombando de Deus, olha, meu filho, e quando achei que tinha acabado a sessão de carapuça, você disse que Jesus seria novamente crucificado, e não por comunistas ou tiranos, mas desta vez por “crentes-ateus-praticantes”. O que foi isso?, na hora fiquei muito chateado com você, senti-me profundamente ofendido e entendi que você não passa de um desigrejado frustrado com algum trauma de igreja. Confesso que foi uma batida muito forte que você me deu, mas depois aquilo ficou trabalhando por dentro de mim, e tudo mudou. Então, mês passado fui escalado para pregar e o que falei?
Seminarista: Mateus 6.25-34
Cliente: Mencionei no púlpito tudo o que você me falou. Criei coragem…
(eles não perceberam, mas eu estava lacrimejando)
Diaconisa: Foi o Espírito Santo.
Cliente: Creio. Léo, estamos entrevistando candidatos a pastor-presidente, e quando mencionei durante o sermão, as coisas que você me falou, notei que atingiu duramente a ala de diáconos da igreja que procura alguém com perfil da teologia da prosperidade.
Seminarista: Que normalmente se enrola todo para pregar sobre Mateus 6.25-34…
Cliente: Isso, então, esses dois aqui queriam conhecer o autor do sermão por procuração que eu entreguei mês passado. E por isso estamos aqui.
Leonardo: “Sermão por procuração”, essa foi boa, anotado.
(risos, eu estava tentando disfarçar a voz embargada)
Seminarista: Você poderia passar as referências bibliográficas que usou sobre transtorno de ansiedade?
Leonardo: Vou te passar links de uma terapia de leitura que realizo chamada Uma leitura ao dia. Lá você encontrará diversas referências bibliográficas sobre esse tipo de transtorno. Especificamente sobre minha conversa inicial que provocou esse curioso processo, tomei como base o capítulo 7 da obra Livre de ansiedade, do PhD Leahy. Conhece?
Seminarista: Não.
Leonardo: Creio que na biblioteca do STBNB ou da Unicap você irá encontrá-la.
Seminarista: Como você chegou a conclusão que o sistema lá do escritório é “tóxico” e que o nosso irmão (nome) sofre do que chama mesmo… cadê… sim… “síndrome da onipresença”?
Leonardo: Já ouviu falar do filósofo italiano Umberto Galimberti?
Seminarista: Não.
Leonardo: Pude escutá-lo in loco. Galimberti se ocupa bastante sobre problemas da modernidade, e a ansiedade está intrínseca quando, por exemplo, ele argumentou que os meios modernos de comunicação criam a ilusão da presença geral e imediata das pessoas. O sujeito aciona o WhatsApp , o telefone ou uma rede social de alguém sob a ilusão de que pode estar instantaneamente com a pessoa, mas isso não passa de uma ilusão, não apenas porque a pessoa está distante fisicamente, mas sobretudo porque certamente está direcionada em outra atividade ou indisposta para o contato no momento. Toda forma de comunicação que ignora isso, acaba estimulando ansiedade patológica tanto em quem procura, quanto em quem é acionado.
Seminarista: Faz sentido, e o pior que agimos assim e nem percebemos.
Leonardo: Sim, porque o sistema de comunicação é moldado por TIs que exploram transtornos de ansiedade para obter mais lucro. No capítulo 7, da obra do Leahy, ao pensar sobre o problema da preocupação contínua, sem avaliar o que é prioritário, onde nenhum risco é tolerado (p. 121), quando na verdade há ocorrências que podem ser organizadas para tratamento a posteriori, em horários específicos, de forma sequenciada. Você trabalha lá e deve ter notado que os seus colegas estão apreensivos com o novo sistema porque falta ordenamento com o turbilhão de coisas que chegam no automatismo do robô.
Seminarista: Inclusive conversei com a empresa desenvolvedora para rever isso.
Leonardo: Sem um refinamento do que realmente é urgente e o que pode ser ordenado para depois, o sistema retroalimenta a ilusão dessa presença contínua, geral, sem limites, com um robô supostamente dotado de IA passando a ideia de um imediatismo bizarro que acaba satisfazendo todo tipo de ansiedade em clientes e atinge os seres humanos que trabalham na organização e, dada a falta de avaliação desses níveis de prioridade para cada demanda, isso vai provocar mais e mais sobrecarga de tarefas, o que, por sinal, foi constatado recentemente entre os colaboradores. Em termos sucintos, a ideia inicial do robô é interessante, mas falta inteligência para um sequenciamento lógico por níveis de prioridade, e isso torna o uso do sistema novo uma coisa tóxica em termos de incentivar mais ansiedade patológica de clientes até alcançar empregados, sem diferenciar da ansiedade boa.
Diaconisa: Ansiedade boa?
Leonardo: Isso, existe a ansiedade adaptativa, que é benéfica por nos colocar em situação de alerta por conta de uma ameaça real. O problema é que o sistema de IA do escritório não sabe diferenciar o que é adaptativo (prioridade máxima), do que não é adaptativo e pode ser sequenciado em uma programação de atendimento a posteriori. Notei que no sistema há até uma seção que tenta resolver esse problema, mas é muito rudimentar.
Seminarista: Então, há uma ansiedade que não faz mal. E como ficaria Mateus 6.25-34 nesta leitura?
Leonardo: Ler esse dito de Jesus de forma literal “não andeis ansiosos por coisa alguma”, também não ajuda. No contexto, vejo que Jesus nos alerta sobre duas ilusões: a primeira, a de que temos o controle das coisas no sentido de determinar o andamento dos fatos quando a natureza tem sua própria dinâmica (as aves do céu não semeiam e encontram alimento) e, segunda ilusão, de que podemos lidar com o futuro, quando nos adverte que “o dia de amanhã se preocupará consigo mesmo”. É uma sabedoria oriental muito profunda que foi mal concebida em nossa mente ocidental tão imediatista, que ignora nossa condição humana e vende um produto falso e, na perspectiva da fé em Cristo, até mesmo pecaminoso: de estarmos em todos os lugares, conhecermos todos os problemas e podermos resolvê-los sem ressalvas.
Cliente: Eita, mais um sermão por procuração…
(risos)
Diaconisa: Deixa eu ver se entendi, você está dizendo que a ansiedade ruim pode nos colocar no pecado de nos passarmos por Deus?
Leonardo: Exatamente isso.
Cliente: e que eu estou neste pecado ao estimular os clientes a pensarem que tudo é urgente, sem limites e que eu posso, quer dizer, meu escritório, pela ideia que o novo sistema passa, estar em todos os lugares, saber e resolver tudo a qualquer hora, sem distinção. É realmente uma coisa muito arrogante.
Leonardo: De certa forma, quando usei a expressão “síndrome da onipresença”, suavizei, porque a ideia da TI é vender a ilusão total, os três atributos divinos, de um poder que não existe em termos de uma organização humana. A TI vive de vender essa ilusão e, infelizmente, cristãos caíram nessa armadilha. Não pensam mais em termos humanos e estão se tornando refém de robôs e métodos de interação nada humanos. Aqui penso em um livro do C. S. Lewis: A abolição do homem.
Seminarista: Este eu conheço, lembra mesmo.
Diaconisa: Isso está gravado?
Leonardo: A transcrição, sim
Seminarista: E quando poderemos ter acesso?
Leonardo: Vou publicar os pontos principais em meu blog, sem mencionar os nomes.
Cliente: Uma última pergunta: Por que você se sente mais católico romano hoje?
Leonardo: Isso daria outro encontro, mas vou sintetizar, e perdoem-me a franqueza: não é possível estar em Cristo sem ser católico, no entanto, o sentido que uso aqui para “católico” está em Inácio de Antioquia. Muitos evangélicos que não aceitam a igreja romana, precisam compreender isso. Posso falar que minha aproximação com o catolicismo romano se deu após quase 10 anos de meditação. Também por conta de minhas viagens à Itália, principalmente em Assis, e ao Vaticano, lugares que me tocaram profundamente. Não sei o que vai acontecer comigo nos próximos anos. Só Deus sabe.
(voz embargada na parte final)
Fim da reunião
481. Por se tratar de um encontro com líderes de uma igreja à procura de um pastor para presidi-la, achei por bem deixar bem claro minha posição no final do parágrafo.
482. Apesar de ter enviado em 2007 uma carta solicitando minha exclusão, meu nome ainda consta no rol de membros de uma grande igreja batista em Recife.
01/11/2025 14h47
Imagem: Site oficial

“Quanto mais evitamos ou afastamos nossas emoções, mais ansiosos ficamos.”
Obra: Calma. Técnicas comprovadas para acabar com a ansiedade agora. Capitulo Dois. Suas emoções. Você está sufocando suas emoções? Latitude, 2021, Cotia. Tradução de Luciane Gomide. De Jill P. Weber.
Anxiété, a rainha do drama – por Leonardo Amorim
Os versos de Anxiété foram dispostos de acordo com a sequência da descrição no Zoom.
08h00 – Primeiro atendimento (C1)
Cliente: Bom dia, Léo, um momento, estou em uma ligação.
Leonardo: Bom dia…
Quatro minutos depois…
Cliente: Você acredita que concluímos hoje?
Leonardo: Depende, precisamos que você se livre do telefone e do zap.
Cliente: Você sabe que não posso. Sou dona de um escritório…
Leonardo: Pode sim, entregue para alguém, solicite que anotem recado, já perdemos cinco minutos com esse aliado aí da “rainha do drama”. Se eu vivo sem ele, qualquer um pode viver.
Cliente: Rainha do drama (risos). O quê? Eu?! Ah, você adivinhou com quem eu estava falando…
Je suis la reine des drames
Eu sou a rainha do drama
Leonardo: Não é você, nem quem estava falando contigo, mas a força que deseja te dominar. Depois explico.
Cliente: Tá, desligo se você me explicar em dois minutos como faz para viver sem atender ligação.
Leonardo: Hum, isso não é nada bom, viu?, estamos perdendo tempo… Vamos lá. Tive que aprender a, em vez vez de evitar a emoção, conhecê-la melhor para não cair no problema da preocupação aleatória sem considerar se a ansiedade que sinto é saudável (adaptativa) ou patológica (pp. 1-2). A primeira ansiedade é apropriada, diria necessária diante de situações de percepção de ameaça ou perigo com o acionamento de uma resposta fisiológica momentânea (p. 1), por exemplo, uma mensagem de que algo grave ocorreu com alguém importante em sua vida ou que o prédio do escritório está pegando fogo. Já a segunda ansiedade é uma resposta imprópria desencadeada por sinais que não são ameaçadores ou urgentes (p. 2), por exemplo, um cliente com uma demanda que pode ser urgente ou comum, e para definir bem isso, é necessário um filtro ou seja, colocar alguém ou algo para fazer a primeira abordagem ou a triagem.
Je suis celle qu’on ne voit pas
Eu sou aquela que ninguém vê
Je suis celle qu’on entend pas
Eu sou aquela que ninguém ouve
Leonardo: A ansiedade patológica é um inimigo que ninguém vê nem escuta, enquanto ganha espaço quando não separamos o que realmente importa, é urgente, tem prioridade, e o que pode ser sequenciado em tarefas posteriores. O problema é que, ao não sabermos diferenciar uma ansiedade da outra, não resistimos, quebramos nosso foco, tudo é urgente, e então cedemos imediatamente no telefone, no WhatsApp e coisas do gênero. Satisfeita? (acenou positivamente). Então, perdemos 15 minutos já com essa conversa, agora, faça o favor de se livrar do telefone, feche o WhatsApp do seu Windows, creia em mim, e vamos terminar isso hoje.
Quarenta minutos depois…
Leonardo: Pronto, parte A resolvida, no agendamento das 15h00 resolveremos a parte B.
Cliente: Combinado, mas, quem é a rainha do drama?
Leonardo: Creio que no final do dia, você mesma descobrirá.
15h00 – Segundo atendimento (agendamento)
Leonardo: Boa tarde! E então, como foi seu primeiro dia logo após ser liberta da escravidão do telefone e do WhatsApp?
Cliente: (risos) LALUR e o LACS (parte B) estão prontos.
Leonardo: Olha aí. Então vamos conferir as demonstrações na ECF e fazer a transmissão.
Cerca de 30 minutos depois…
Cliente: Passei umas 3 noites sem dormir quando esse CNPJ foi inativado. Essa cliente liga todos os dias achando que é simples consertar essa m**** que o outro escritório fez com a empresa dela.
Leonardo: É… a rainha do drama não perdoa…
Cliente: Já sei quem é a rainha do drama viu seu Leonardo, é a minha ANSIEDADE!
Leonardo: Bingo! A rainha do drama… e não somente a sua. É como se diz em uma canção da Pomme, uma poetisa francesa, essa rainha manipuladora vive escondida quando resistimos a um choro saudável e ficamos presos à preocupação sem discernimento da real situação:
Je suis cachée au bord des larmes
Eu estou escondida à beira de lágrimas
Cliente: Lindo isso! E assustador também.
Leonardo: A rainha do drama nos envolve impedindo nosso melhor conhecimento das próprias emoções, subvertendo tudo em um medo antecipado e exagerado. A ansiedade patológica vem de mansinho, parecendo que deseja cuidar bem de nossos pensamentos no final do dia, mas que impede o sono reparador por nos manter fixos na preocupação como se estivesse nos fazendo um bem, sendo tóxica por ignorar a natureza das emoções e nos manter em estado de alerta sem necessidade. A Pomme (a jovem poetisa que parece ter vindo de outro planeta) descreve isso de forma profunda e até com um tom de erotismo para ilustrar o poder de sedução da ansiedade:
Quand tu veux dormir je viens pour t’embrasser
Quando você quer dormir, eu vou para te beijar
Si tu veux courir je rampe à tes côtés
Se você quer fugir, eu rastejo ao seu lado
Cliente: É mesmo, a sensação é de que estou sendo sufocada, um nó na garganta…
Leonardo: Exato. A doutora JP Weber aponta que o conhecimento melhor das emoções possibilita o maior controle sobre elas (p. 19), e quando nos afastamos de nossas emoções, ou seja, sentimos, mas não queremos compreendê-las melhor ou até mesmo fingimos ser outra coisa, normalmente algo pior do que realmente é, quando sofremos uma queda emocional diante de um estresse muito elevado, fatalmente haverá o aumento desproporcional da preocupação, onde a ansiedade se fortalece e nos sufoca. Não se deve acreditar em tudo que sentimos, pois isso pode ter origem em uma crença que distorce a realidade.
[…]
Leonardo: Para terminar, sobre o poder imenso da rainha do drama, quando saio, gosto de observar as pessoas de cabeça baixa olhando para o celular, e são muitas não é? A ansiedade está sempre operacional, nos chamando para lhe darmos mais atenção do que merece ou, como em um verso da Pomme:
Je t’attends, je t’attendrai toujours, derrière
Eu estou te esperando, eu sempre vou te esperar, atrás de você
15h58 Fim do atendimento
No videoclipe oficial de Anxiété (na abertura desta edição mensal), Pomme supera os próprios limites da inteligência de sua poesia ao materializar a ansiedade, expressando o sufocamento que ela provoca.
3 Replies to “Uma leitura ao dia (nov/25)”