Imagem: Casa do Saber

Byung-Chul Han

“A técnica temporal e de atenção multitasking (multitarefa) não representa nenhum progresso civilizatório.”

Obra: Sociedade do cansaço – Nobilis. 3. O tédio profundo. Vozes, 2024, Petrópolis. Tradução de Enio Paulo e dos trechos em inglês por Letícia Meirelles. De Byung-Chul Han (Coréia do Sul/Seul, 1959).

Como você consegue? – por Leonardo Amorim

A pergunta do cliente foi reativa quando lhe chamei a atenção por interromper diversas vezes a nossa sessão no Zoom para atender a ligações telefônicas e a mensagens no WhatsApp, enquanto tratávamos de um caso grave de malha fiscal.

Devolvi a pergunta com outra:

– Como você consegue não dedicar pelo menos 60 minutos exclusivamente para resolver um caso de extrema gravidade que pode resultar em diversos prejuízos ao seu cliente, refiro-me a centenas de milhares de reais, simplesmente porque não consegue direcionar ligações telefônicas, para uma triagem que pode ser realizada por um de seus colaboradores? Duvido que os problemas dessas ligações cheguem perto do que estamos tentando resolver aqui.

O tom era amistoso, apesar do teor, e então continuei:

– Como eu consigo? Tive que aprender a neutralizar o instinto primitivo que nos impulsiona à ação desordenada, aleatória e imediata diante de estímulos diversos, herança deixada por nossos antepassados em um estágio rudimentar onde ainda não sabíamos definir prioridades – e então o cliente retomou a palavra:

– Discordo. Temos que ser dinâmicos e atender tudo de imediato, senão perdemos nossos clientes – ponderou.

Ao falar em “atender tudo de imediato”, o cliente estava a repetir um padrão de técnica multitasking muito comum entre profissionais os quais me relaciono com frequência, onde está consolidada a crença de que ser eficiente, produtivo, competente, ágil, rápido, atencioso, responsável, entre outras qualidades, tem muito a ver com realizar tarefas distintas, de forma sempre imediata, simultânea, sem qualquer triagem e avaliação de prioridade. Atende-se no ato sem quaisquer filtros, critérios, registros, tampouco sob uma disciplina de agenda.

Fato é que se o método defendido pelo cliente fosse mantido naquele momento, fracassaríamos no objetivo maior e então lhe pedi, encarecidamente, que se desligasse do celular e dos demais meios que pudessem roubar sua atenção, para que tivéssemos uma mínima chance de conclusão das tarefas do problema grave que motivou nossa reunião. Com certa relutância, aceitou e acabamos bem sucedidos.

A correria da sociedade do cansaço reside na interconectividade que a impulsiona. Penso aqui em uma uma epidemia de alienação sobre o que realmente importa. Penso especificamente na experiência de leitura que tive recente do livro Sociedade do cansaço – Nobilis, do filósofo e ensaísta sul-coreano-alemão Byung-Chul Han. No capítulo 3, o professor da Universidade de Artes de Berlim, aponta que a fragmentação e a destruição da atenção residem no excesso de estímulos, informações e impulsos que evidenciam a sobrecarga de trabalho onde se apela a multitasking (multitarefa) como solução, no entanto, argumenta o filósofo, a técnica é um retrocesso, “amplamente disseminada entre os animais em estado selvagem” (p. 24).

O que no imaginário popular entre profissionais de diversas áreas é entendido por algo bem usual, recomendável, relacionado à eficiência, para Byung-Chul Han realizar várias coisas ao mesmo tempo é um retorno ao primitivismo da sobrevivência exigida na vida selvagem: “Na vida selvagem o animal está obrigado a dividir sua atenção em diversas atividades” (p. 24), afirma, e enquanto come, tem que se preocupar em não ser comido, cuidar da prole, do parceiro, entre outras ameaças, quando então associa esse modus de selvageria à correria da atual sociedade: “as mais recentes evoluções sociais e a mudança de estrutura da atenção aproximam cada vez mais a sociedade humana da vida selvagem” (p. 24).

Para Byung-Chul Han, essa sociedade do cansaço está perdendo a noção do “viver” em favor do “sobreviver”; a perder também está a sua capacidade de atenção contemplativa, profunda, eu diria, mais qualificada, reflexiva, ponderada, porque caiu em uma cultura de ansiedade, penso, e assim se tornou refém do que o filósofo aponta quanto à “hiperatenção” que se notabiliza pela “rápida mudança de foco entre diversas atividades” (p. 25), o que eu diria “imediatista”, justamente o problema que tive que resolver no cliente para que o trabalho fosse possível de ser concluído.

Sobre o problema do foco, é comum em meu cotidiano lidar com cliente que apresenta inúmeras demandas e tenta resolvê-las ao mesmo tempo, ou quando estamos no processo de resolução de uma tarefa, insere outra sem se dar conta que não terminou a que está em andamento, mesmo que dependa da que não foi concluída, o que me força a retomar o foco original para que o atendimento agendado não seja prejudicado.

A sociedade do cansaço não tem tempo para saborear algo mais profundo, não quer saber de diálogo, entendo. Estava a pensar sobre um caso de um colega que afirmou preferir conversar com o chat GPT em vez de uma pessoa de verdade, ou sobre alguns clientes que simplesmente relutam a uma conversa direta e preferem diálogos, que na verdade são recados frios e imprecisos em chats.

Então torno ao filósofo de Berlim que versa sobre essa sociedade doentia que não tolera a contemplação, prática importante para o repouso espiritual e o processo criativo, o que chama de “tédio profundo”, a lembrar o crítico literário alemão Walter Benjamim (1892-1940). Cita o pintor francês Paul Cézanne (1839-1906) sobre a importância da atenção profunda para “ver” o perfume das coisas (p. 26). Menciona Nietzsche a lembrar que a ausência de descanso leva nossa civilização à barbárie (p. 27).

Na sociedade do cansaço, o repouso desaparecido impossibilita a escuta do outro e da natureza. A espreita, a introspecção, o aguçamento dos sentidos, o entendimento mais depurado para apreciar melhor o significado de atividades simples como caminhar e o sentir as coisas ao redor para superar a inquietude e encontrar uma relação mais profunda com a vida (p. 27).

3 Replies to “28/11/2025 22h18 Sociedade do cansaço – Nobilis. 3. O tédio profundo.”

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