Imagem: Sextante

“Quanto mais pessoas contam como é doloroso, como é difícil estar vivo, amar e perder, melhor essa vida se torna.”
Obra: Tudo Bem Não Estar Tudo Bem. Vivendo o luto e a perda em um mundo que não aceita o sofrimento. 5. O novo modelo do luto. O que é pessoal é global: O que é global é pessoal. Sextante, 2021, Rio de Janeiro. Tradução de Alves Calado. De Megan Devine (1970).
Abril de 2007 – No início daquela noite de domingo me lembro do que estava fazendo [589] quando o telefone tocou…. Era o meu pai com a voz trêmula. Foi tudo abrupto… repentino o que escutei. Fiquei paralisado.
Imediatamente pensei sobre o início daquele mês quando tivemos uma longa conversa. Ele passou a noite na então nova casa do filho e lembrou o conturbado período de dezembro/1997 a setembro/2000. Minha vida tinha virado de ponta cabeça quando deixei a casa onde cresci. Escolhi o dia de meu aniversário para ir embora com uma mochila e um computador. Passei a viver em uma pousada até me casar em dezembro do ano seguinte. Meu pai e a minha vó materna foram as únicas pessoas da família que mantinham contato comigo naquele tempo. Encontrava-me frequentemente com o meu pai no centro do Recife. Em um desses encontros vi o homem forte, de mentalidade militar, chorar pela primeira vez me pedindo para voltar. Naquele sofrimento profundo vi o quanto estávamos ligados um ao outro enquanto em paralelo eu passava por uma psicoterapia, contando com a ajuda de professores da universidade, tratando uma síndrome do pânico e outros problemas que foram descobertos a partir de uma psicanálise. Eu tinha 23 anos e lutava em várias frentes para reorganizar minha vida. Consegui manter os quase 30 clientes de sistemas no furacão que enfrentava. De um lado eu tinha o meu pai e a minha vó [590], do outro a minha noiva, hoje minha esposa, como pilares que me ajudaram emocionalmente naqueles dias.
Tudo isso veio em um flashback naquela ligação fatídica de 15 de abril de 2007, que não durou trinta segundos. Estremeci. Veio um choro fulminante, mas logo consegui me refazer para ficar minimamente calmo e contar o que tinha acontecido à minha esposa; vivíamos na expectativa de que ela poderia estar grávida, o que foi confirmado um pouco adiante. Cerca de duas horas depois eu estava em Recife entrando em uma UTI com o meu pai inconsciente, em estado crítico e por uma janela de vidro passei pelos trinta minutos mais tensos de minha vida. Vi seu último suspiro, seguido da equipe médica tentando reanimá-lo. Eu estava só, assistindo a tudo. Uma psicóloga do hospital me acompanhou e entendeu que eu estava “razoavelmente bem”. Recusei tranquilizantes. Após receber orientações sobre “procedimentos legais”, naquela madrugada de segunda-feira lentamente retornei à estrada para casa com uma serenidade que me permitiu guiar o carro a 40km/h. Ao chegar, eram 03h30, sentei e chorei até o amanhecer.
Senti-me mais fortalecido em cada experiência de choro que passei durante o luto. Sabia que é preciso conseguir ficar mais confortável aprendendo com a dor (p. 71), algo que assimilei no tratamento do transtorno de pânico que me ajudou a lidar com um sentimento natural, muitas vezes mal compreendido em uma sociedade que vê o sofrimento como algo a ser evitado, quando na verdade faz parte do processo de experiências afetivas, e como bem lembra a autora, o luto é o sinal de que o amor fez parte da vida (p. 72).
589. Lendo Entre Todos os Homens, de Frei Beto.
590. Visitei minha vó materna secretamente entre 1999 e 2000. Estava reconstituindo a história de minha infância e o histórico familiar, atividades desenvolvidas na psicanálise.
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