Imagem: Stanford Medicine

Anna Lembke

“Talvez em nenhum outro lugar isso seja mais verdadeiro do aqui, no Vale do Silício, onde a norma é 100 horas de trabalho por semana, disponibilidade de 24 horas e sete dias por semana […]”

Obra: Nação Dopamina: Por que o excesso de prazer está nos deixando infelizes e o que podemos fazer para mudar. Parte III. Capítulo 7. Pressionando o lado do sofrimento. Dependente do trabalho. Vestígio, 2023, São Paulo. Tradução de Elisa Nazarian. De Anna Lembke (1967).

A professora e diretora médica de Medicina de Dependência da Escola de Medicina da Universidade de Stanford (EUA) se refere ao “workaholic”.

Viciados em trabalho… Dependente químico da dopamina liberada que cria sua própria euforia na obsessão por metas, resultados, em um tóxico “fluxo de concentração profunda” que prejudica “conexões íntimas com amigos e família pelo resto da vida” (p. 159). Infelizmente, alguns “workaholics” descobrem, além dessas consequências citadas pela doutora, que foi tarde demais para reverter problemas de saúde física e mental.

Nada podia fazer além de me retirar discretamente, quando me dei conta que estava em uma roda de contadores “workaholics”. Deu-se há alguns anos quando, um pequeno grupo, em uma festa infantil, formou uma mesa e quando chamado, pensei que iria socializar um pouco, mas recebi uma carga de dúvidas tributárias; era época da declaração do IRPF.

Um contador “influencer” me procurou recentemente para saber porque me recuso a participar de grupos do WhatsApp formados por contadores, segundo ele, “importantes”, o que prejudicaria meu “network”, assim argumentou. Muito simples foi a resposta: primeiro, como suporte humano, não sou usuário e não dou suporte pelo WhatsApp (meu trabalho é baseado em planejamento por agenda em atendimento por vídeo conferência); segundo, grupos de contadores no WhatsApp são hoje os maiores centros de viciados em trabalho que, por isso mesmo, não respeitam dia nem hora para acionar nesses grupos, e terceiro, tenho por coisa sagrada não ser importunado fora de minha jornada regular. Passei então ao conceituado formador de opinião os dias e horários de meus expedientes de suporte e consultoria [589].

Às vezes é necessário dar um incremento na jornada de trabalho e hoje foi um dia atípico em que precisei aplicar essa contingência por conta de uma intercorrência. Após ter revisado o planejamento do dia, abri o expediente às 07h30, realizei um pequeno intervalo de 30 minutos, e fechei às 18h47. Posteriormente a jornada extra é compensada com folgas preventivas.

Quando encerro o expediente, desconecto-me totalmente do trabalho de suporte e deixo tudo com a Gioconda, minha secretária robótica que trabalha 24 horas (ela pode!) para organizar minha agenda. É justamente fora do expediente, com destaque para os domingos, onde ela é mais acionada por “workaholics” de plantão. Em alguns casos, a insistência por atendimento fora do expediente faz a robô informar a ululante obviedade dos dias e horários de atendimento. O meu desconectar total atualmente foi aprimorado pela ideia de parada ao esvaziamento da mente, entre a terapia de leitura e demais atividades que me deixam distantes o suficiente do trabalho convencional.

Recentemente, atendendo a uma sondagem de um empresário do ramo contábil, quando percebi nele sinais de ser um “workaholic”, declinei a possibilidade de lhe fazer uma oferta de trabalho. Ele queria um profissional de TI especializado em lucro real com um perfil muito próximo do que é discorrido no trecho (p. 158) desta Leitura. Ao ser questionado porque sequer haveria uma proposta, expliquei a ele que não tenho o perfil desejado e lhe desejei sucesso na procura.

Torno à obra da professora Lembke que aponta uma curiosa explicação para a tendência de redução de jornada de trabalhadores braçais com escolaridade até o ensino médio, e o aumento de jornada dos que têm maior nível educacional; cada vez mais mecanizados e segmentados, enquanto afastados do consumidor final, os braçais não são expostos, no mesmo nível, a motivação interna dos trabalhadores que lidam diretamente com a parte final e estão sob o hiperconsumo compulsivo que se torna a recompensa de um dia de trabalho maçante (pp. 158-159). Aqui penso, quando se prefere a ilusão de que compensa o retorno financeiro e a dita “satisfação do cliente” (cuja educação imediatista não saiu do jardim da infância) em detrimento do que a prosperidade material não pode garantir.

589. Suporte e Horários

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