Imagem: intrínsecos

Patricia Highsmith

“[…] o único ponto de um ser humano onde é possível enxergar o que realmente está acontecendo […]”

Obra: O talentoso Ripley. Série Ripley – Volume 1. 14. Intrínseca, 2025, Rio de Janeiro. Tradução de José Francisco Botelho. De Patricia Highsmith (EUA/Texas/Fort Worth, 1921-1995).

O mês do sexo mais inteligente, mais sofisticado, mais sensível, é aberto com a maravilhosa performance na série Ripley, da atriz milanesa Hildegard de Stefano (1997) para o clássico Il cielo in una stanza, eternizado na voz de Mina Mazzini (1940):

Mulher… Na infinitude de significados, a expressão do que a nossa espécie pode melhor produzir em termos de beleza em todos os sentidos, livre de vulgaridade e de qualquer apelo que tente torná-la objeto. Apenas a alma feminina é capaz de dotar o lado bruto da nossa espécie de uma mínima condição para se desenvolver e, sobre isso, entendo, quando penso em escrever, em poesia ou qualquer atividade mais sofisticada, tenho que acionar meu lado feminino para poder ter condições de interagir melhor, pois sei que o meu lado masculino é bruto demais para isso. A força do masculino se impôs por milênios, mas o feminino, com um pouco mais de 100 anos com certa abertura, conseguiu ocupar muitos espaços e superado o masculino, o que denota a superioridade de sua inteligência. Dar ao feminino a mesma oportunidade do masculino é o que pode aumentar consideravelmente as chances de evolução da nossa espécie.

Ripley… Torno após ter revisitado a série com minha esposa, que parece ter gostado, penso, situada entre as poucas da Netflix com elevada qualidade narrativa. Apresentada em preto e branco, tem um tom meio de Psicose e noir, combinado com alguns elementos de suspense trabalhados no livro. Em minha primeira abordagem do livro, registrei [552] algumas diferenças; acredito que seja importante quando se aprecia uma das obras inspiradas para não confundi-las como se fossem uma coisa só.

Sobre a cena da cantante na série, a mais tocante per me. No livro, não existe. Imaginei que o diretor Steven Zaillian a inseriu como licença poética para materializar a ambição de Ripley, e isso penso no olhar fixo, lacrimejante, paralisado, o que é curioso para um golpista psicopata. Sobre este olhar de Ripley, pensei quando Patricia Highsmith coloca a própria personagem para explicar o que pensa sobre o significado do olhar (p. 101), na frieza típica quando analisa Dickie no episódio da repugnância ao mafioso Carlo.

Todos na cena parecem fixos na cantante, mas o olhar de Ripley deixa escapar algo insólito. Não se trata, portanto, de um olhar por um ideal romântico, amoroso, sexual, erótico… nada disso. Ripley é um psicopata que está em pleno processo de realização do grande golpe que mudará sua vida e aquele deslumbre se torna visível no encontro com a interpretação de Mina, que passa então a fasciná-lo pelo glamour, junto com a fixação que passa a ter pelo pintor Caravaggio, outra inserção poética.

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