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VIII. Não busques que os acontecimentos aconteçam como queres, mas quere que aconteçam como acontecem, e tua vida terá um curso sereno.

Obra: Introdução ao Manual de Epicteto. O Manual de Epicteto. VIII. UFSE, 2012, São Cristóvão. Tradução do texto grego: Aldo Dinucci e Alfredo Julien. Introdução e notas: Aldo Dinucci.

Talvez seja o ensinamento estoico mais difícil de ser compreendido e ainda mais de ser aceito.

A proposição de manter a serenidade no aceite ao curso natural das coisas, contraria severamente a característica humana que atua em favor do intervencionismo.

O primeiro problema é o da generalização, como se fosse proposta a mais completa passividade diante dos acontecimentos. Penso, neste caso é necessário se ater às intercorrências que se situam fora da capacidade de controle, o que remete ao problema de saber o que é possível e o que não é possível de ser controlado. Nesta última questão, há outra: a ilusão do controle, quando se pensa que está controlado o que na verdade não está e, muitas vezes, não pode ser.

Quando se descobre essa ilusão, pode-se mudar de vida ou entrar um uma crise autoinfligida na tentativa de negar a própria limitação na busca do que não é possível. Conheci pessoas que se amarguraram profundamente e ficarem presas por muito tempo ao rancor e à melancolia quando descobriram que não tinham qualquer controle significativo sobre um ente, um filho, um parceiro afetivo, ou quando se depararam com uma doença onde as economias que dispunham não podia resolver, um golpe financeiro que expôs fragilidades que não sabiam e/ou subestimaram ou uma traição que sofreram… enquanto outros reagiram bem ao choque de realidade e, após digerirem a dor, suportarem o sofrimento e entenderem a ordem dos acontecimentos, passaram a ver a vida de uma forma mais leve e saudável simplesmente por terem se livrado dessa ilusão de controle.

Penso no autor das notas sobre II,2 a que se refere Epicteto quanto ao engano de “pensar estar sob
nosso controle evitar a doença, a morte e a pobreza” (p. 9). Uma vez com melhor discernimento do que está além do controle, a sabedoria estoica fica melhor de ser compreendida no sentido de que o tradutor afirma acerca de “aceitar todas as coisas que podem acontecer fora de nosso controle”, da tarefa de “lidar o melhor possível com elas, sejam elas quais forem” (p. 10) para não perder tempo com preocupações e sofrimentos inúteis (p. 40).

Essencialmente, por mais precauções que forem tomadas, enquanto adotá-las retrata um espírito de responsabilidade, prudência e zelo, é igualmente importante não se iludir crendo que se está 100% “garantido” ou “seguro” das contingências, dos riscos ocultos, das ameaças desconhecidas, de tudo que pode nos atingir severamente no campo do imponderável ou, como sugere o tradutor: “Por mais que evitemos situações perigosas, não está ao nosso alcance escapar de, impedir e prever todo e qualquer acontecimento que nos leve à morte” (p. 39).

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