
“Não somos determinados por nossas experiências, mas o sentido que damos a elas é autodeterminante.”
Obra: A coragem de não agradar. A primeira noite. Negue o trauma. O trauma não existe. Sextante, 2018, Rio de Janeiro. Tradução de Ivo Korytowsky. De Ichiro Kishimi e Fumitake Koga.
A negação categórica do trauma (p. 28) e a irrelevância do passado (p. 25), entendo, são os pontos mais provocantes da psicologia adleriana. Inconscientemente, um traço dela provocou minha primeira crise de resistência à psicanálise (1997), o que acabou sendo bem canalizado pelo profissional, apesar de sua linha freudiana.
Em vez de “causas do passado”, como ocorre na visão etiológica de Freud, Alfred Adler (1870-1937) desenvolveu a ideia teleológica de “metas do presente” quando se cria um estado (p. 26), diria, mental, que se estabelece e provoca um determinado problema de comportamento.
Não é um fato em si do passado, visto como fonte de um “trauma”, que provoca um determinado transtorno, mas o sentido dado no presente a ele que se torna autodeterminante (p. 28) Esse “sentido” se traduz em uma “meta”. Em Freud se investiga o passado para indicar a causa de um determinado problema. Em Adler, o que interessa é o aqui e agora, pois “nenhuma experiência é, em si, a causa do nosso sucesso ou fracasso. Nós não sofremos do choque de nossas experiências – o chamado trauma -, mas o transformamos em algo que atende aos nossos propósitos” (p. 28).
Em Adler, uma pessoa com síndrome de pânico fica assim porque está sob um estado de fobia que criou na mente diante de um determinado estímulo, sensação ou exposição para alcançar a “meta” de entrar em pânico, enquanto em Freud normalmente se explica que o problema teria uma causa no passado relacionado com algum evento considerado “traumático”. A minha fobia por seringa foi superada por Adler e não por restrita abordagem freudiana, embora tenha sido considerado um evento na infância, o medo só foi vencido quando entendi o sentido que dava aos estímulos no presente e não no que passei na infância.
Em Adler, a criação de um estado mental não se trata de fingimento e sim de um problema real na mente, o que foi derivado de um propósito, no entanto, à primeira vista, esse raciocínio pode soar como simplista e até como contrassenso ao considerar alguém no intuito para si de algo muito desagradável, como ansiedade ou pânico, e, certamente por isso, a visão freudiana parece mais lógica.
A “meta” em Adler é um vetor de busca de atenção. O ansioso patológico, como no exemplo do amigo do jovem que fica o tempo todo no quarto, vive sob a meta da ansiedade para ganhar atenção, no caso, dos pais, certamente porque deseja manter algum cuidado especial que não teria se estivesse se comportando como a maioria (p. 29). No exemplo da raiva expressa pela mãe, em outro caso, esse sentimento tão comum é visto como instrumento para se alcançar uma meta, que pode ser de domínio sobre o outro ou impor opiniões, no caso a filha, enquanto no meio da manifestação, ao atender a ligação e falar com outra pessoa, interrompeu o uso da raiva porque não havia sentido para aplicá-la a pessoa do outro lado da linha (p. 33).
Eis a dialética nesta obra entre o filósofo, adleriano, e o jovem, de viés freudiano. Percebi na própria pele que a abordagem freudiana pode alimentar comodismo, quando se alega um “trauma” para não somente explicar um comportamento, mas para, de certa forma, abrandar responsabilidades e até mesmo “justificá-lo”, do tipo, você é assim porque tem um “trauma” de infância ou ocorrido há um determinado tempo. Esse tipo de comodismo se dá em quem passa a achar interessante a ideia de ficar preso ao passado para se explicar como traumatizado enquanto indisposto a promover mudança no comportamento pela abordagem de Adler, que analisa propósitos.
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