Imagem: Terra Bellum

Aristóteles

“§ 3. Deverão, porém, os homens superiores mandar e ser senhores de tudo?”

Obra: Política. Livro Terceiro. Capítulo VI. Martin Claret, 2003, São Paulo. Aristóteles, filho de Nicômaco de Estagira (Grécia antiga/Estagira/Calcídica, 384 a. C. – 322 a. C).

Uma questão atualíssima quando reflito sobre figuras da política executiva, e por que não de outros poderes, que ensaiam tirania e, via de regra, são veneradas e odiadas por multidões.

Em torno da questão, qual seria o melhor soberano do Estado? A multidão, os ricos, os homens de fama, um homem mais virtuoso entre todos ou um tirano?, indaga o filósofo (p. 94). Seriam os pobres, que estão na multidão mas poderiam injustamente tratar os ricos pela usurpação de bens? Sobre isso, não é raro encontrar simpatizantes a ideia de que violar a propriedade seja uma forma de proporcionar justiça, a considerar que o enriquecimento se baseia tão-somente na exploração em um sentido que dão sempre de forma deplorável.

Segue o filósofo a sondar e da mesma forma que podem ocorrer violações na soberania da multidão, formada por pobres que se sentem injustiçados pelos ricos, o tirano abusa da força e promove a violência, de maneira que constituir poder de governo a somente um homem, “sujeito às paixões inerentes à sua natureza” é um mal “de todos os pontos de vista” (p. 95). Quando penso neste ponto em particular, volto aos idos de 2018 e penso em um massa de descontentes com o sistema político (coisa comum na história do poder), curiosamente se dizendo defensora de uma liberdade um tanto estranha que combinava a ideia de “um homem forte na política”, muitas vezes chamado de “mito”, a ser celebrado e constituído com poder suficiente para “livrar o país do comunismo”. Essa coisa de depositar fé em apenas um homem para algo hercúleo e que demanda enorme concentração de poder é algo que vez ou outra torna a ser disseminado, e tal contexto assim se deu em favor de um certo candidato na eleição presidencial daquele ano. Foi o tempo em que pensei o quanto a direita, sob espírito de fanatismo, torna-se tão ignara, bruta, estúpida, quanto à massa da esquerda quando regida sob a mesma paixão.

Em ON POWER: The Natural History of Its Growth, de Bertrand de Jouvenel (1903-1987), o problema do acúmulo do poder é ampliado de forma que considero bem mais interessante: na perspectiva de um processo histórico de agigantamento do aparato estatal. O fator humano segue na linha de um poder que se ancora no Estado em crescimento contínuo pelas civilizações.

Torno a Aristóteles que argumenta em favor do “homem eminente”, que diferente do saído da multidão da mesma forma que a beleza é diferente da fealdade. Um pequeno grupo de sujeitos mais depurados em comparação com o tipo predominante na massa, certamente varia entre povos, pondera. Dar protagonismo para as coisas do poder superior aos eminentes e deixar a massa de lado não é algo prudente quando a multidão é pobre demais em uma sociedade onde há o cultivo de inimizades e assim, “resta dar a multidão uma parcela nas deliberações públicas e nos julgamentos” (p. 96). Aqui penso, no pragmatismo de Aristóteles em relação ao aparato moderno que tão-somente segue a acumular poder enquanto “democrático”, de maneira que em seu exercício social se aprendeu a usar essa estratégia de forma cada vez mais sofisticada ou, em outras palavras, é dando alguma força decisória à multidão, que se tem uma cooperação mais efetiva, sem que a massa perceba, em favor de uma oligarquia que se torna mais incisiva, determinista e quase imperceptível.

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