Imagem: Fronteiras do Pensamento

Elisabeth Roudinesco

“Freud sempre dizia que sua última filha nascera junto com a psicanálise. […]

Obra: Sigmund Freud na sua época e em nosso tempo. Terceira Parte. Freud na intimidade. 2. Famílias, cães, objetos. Zahar, 2016, Rio de Janeiro. Tradução de André Telles. De Elisabeth Roudinesco (France/Paris, 1944).

Em Freud a família era concebida como uma “grande felicidade”, cuja comunidade representava “o modelo por excelência de toda forma de organização social” (p. 269). O neurologista foi liberal em uns aspectos, conservador em outros. Fora um judeu que se casou por amor e não por apenas tradição ou arranjo; era favorável aos casamentos mistos, o que não era visto com bons olhos em sua comunidade judaica (p. 270), mas, penso, tinha posições conservadores em relação ao papel da mulher.

Filhos e filhas reverenciavam o pai fundador da psicanálise, conheciam sua obra em meio a colegas e discípulos do doutor que frequentavam a casa e participavam dos círculos de estudos e debates, mas o senhor Freud queria que sua prole se instruísse, no tocante à realidade da vida sexual, por meio de leituras e não pelo que se desenvolvia em conversas ali. Seguiram os filhos sua visão familiar mais aberta nos casamentos, abdicando dos acertos em favor dos sentimentos, embora tenham escolhidos judeus como cônjuges, no entanto, a vida dos Freud foi tão comum quanto se possa imaginar.

O doutor de Viena teve um ambiente familiar com características bem conhecidas em nosso tempo. Fazia o papel do “pai para todos” quando tratava genros e noras como filhos e passou um tempo os acolhendo em sua casa (p. 275) muitas vezes devido a instabilidades financeiras. Freud lidava com filhos que não se pareciam com ele e eram bem distintos entre si, mas que tinham interesse em acompanhar os movimentos do pai com seus discípulos (p. 277). Às filhas o doutor desejava uma visão mais tradicional no sentido de serem educadas para a maternidade e aos serviços domésticos, o que refletia Martha, a esposa que governava a casa, contudo, essa visão do pai parecia não ser uma tendência na filha mais nova, Anna (p. 271), cujo amor aliado ao do doutor da psicanálise instituiu um novo circulo na família: o apego aos cães (p. 279), que passaram a ser os novos membros da família. Anna era mais chegada aos machos, Freud, às fêmeas. Um tempo depois o doutor se deixou seduzir por uma “gata narcisista” (p. 281) o que parece combinar com um artigo que escrevera a respeito.

Anna Freud se tornaria de maior destaque não apenas pela cultura em torno dos pets e sim por traços peculiares de seu comportamento que despertaram grande interesse no pai. A filha mais nova tinha ciúmes da irmã mais velha, Sophie, com o marido. Eis algo comum em famílias e seria apenas mais um traço. O ponto mais intenso, penso, foi o fato de Anna também ter “atração pelas mulheres”, além de ter sido lembrada pelo pai por conta de seus “maus hábitos”, incluindo o da masturbação (p. 282). A jovem caçula despertou o interesse por um dos discípulos do pai, Jones, mas o doutor Freud “metera na cabeça que ela corria um risco” , pois o rapaz não seria apropriado a “uma criatura feminina de natureza sofisticada” (p. 282) em meio à repulsa que ela costumava apresentar aos homens que a cortejavam. Outros discípulos foram despachados por Freud enquanto o doutor passava a ficar mais interessado em analisar a filha como paciente no intento de “despertar sua libido” (p. 282). No final do tratamento, Freud indicou a Lou Andreas-Salomé que “se a libido de Anna ‘despertara’, sua ‘escolha de objeto’ não a guiava em absoluto para os homens” (p. 283). Desde que tomei conhecimento desta história, penso no código de ética hoje que impede profissionais de saúde mental tratarem de pessoas tão próximas. Por outro lado, Freud percebeu que a falta de libido era algo tão sério na filha que a pediu para ele mesmo assumir o tratamento enquanto promovia dispensas de pretendentes a um relacionamento com ela.

Outra filha que se afastou dos planos domésticos conservadores do pai foi Sophie, “amante da dança, das noites de Ópera, da vida social e das novas gerações”, com um amor frustrado e outro em que se casou, ela se via um tanto estranha em sua família “demasiado rígida” (p. 275). O marido, Max Halberstadt, com neurose traumática, cefaleias e depressão, empobreceu e acabou sendo subvencionado pelo sogro. Doutor Freud então recomendou a instalação de uma diafragma na filha para evitar uma terceira gravidez (p. 276). Sophie marcou um momento crítico na vida de Freud: ela morreu em decorrência do agravamento de uma gripe precedida por problemas psíquico e físico relacionados com uma gravidez indesejada, fato que fez o doutor Freud mergulhar em “dor e culpa” (p. 276) por ter recomendado a continuidade da gestação, crendo que se tratava apenas de uma questão financeira. A morte da filha ocorrera depois de três meses em que Freud descobriu ter um câncer (p. 277). O doutor então seguiu apoiando financeiramente o viúvo Max (até mesmo quando decidiu se casar novamente).

A vida familiar do doutor Freud ganhou um ponto ainda mais delicado quando ele recebeu “uma forte transferência” (nota de rodapé 57, p. 272) da cunhada Minna Bernays, que morou com o casal. O termo “transferência” é comum na abordagem do desenvolvimento de um afeto que ocorre entre o paciente para o psicanalista ou psicoterapeuta. No caso, está aplicado a um afeto da cunhada de Freud por ele. E seria vice-versa? Eis que o famosíssimo psiquiatra de Viena e a cunhada Minna andavam juntos em viagens e circulavam boatos de um caso entre eles, o que se juntou ao fato de que o doutor era visto com desprezo em círculos incomodados com o seu “pansexualismo”, sendo taxado de “cientista boche” na França (pp. 272-273), o que não combinava bem com suas opiniões e seus hábitos, onde se dizia “adepto da abstinência sexual” (p. 274); aqui vejo um caso onde o autor de determinado estudo, no caso em torno da sexualidade, sobretudo sob o tema do “complexo de Édipo”, sendo confundido com o que fora estudado.

Um ponto que considero muito importante para entender a visão freudiana do afeto é destacado pela autora: “Freud sempre tivera a convicção de que a felicidade familiar refletia a imagem do grande ciclo da vida e da morte e da substituição de um objeto desejado por outro, com a condição de que a compulsão à repetição não fosse de natureza mórbida” (p. 277). Nessa perspectiva freudiana, um ente perdido é substituído por outro que passa a ser amado apenas por ocupar o lugar que o amado anterior deixou vazio. Lembro-me de ter conversado bastante sobre isso, em tom de discordância, na última conversa que tive com o meu amigo psicanalista (2015, ele adoeceu e partiu no ano seguinte), quando sugeri em tom crítico que “talvez a psicanálise seja mais sobre os problemas familiares de Freud do que sobre os pacientes que estudou em geral”. Contudo, hoje penso que os problemas familiares de Freud são tão comuns que a minha crítica na ocasião não passou de uma obviedade.

Fui “um caso de resistência”, “uma mente irlandesa”, dizia sempre meu velho amigo com uma dose amistosa e caridosa de humor, um tanto intrigante por me abrir a técnicas heterodoxas, enquanto, como paciente, eu fui também indelicado com ele por classificar a psicanálise como “mero determinismo”, mas isso ficou longe de impedir que navegássemos por outros mares, incluindo a oposição ao trauma psicológico de Jung e, de forma mais categórica, em Adler.

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