Imagem: Portal da Literatura

Albert Camus

“[…] As pessoas apressam-se, então, a julgar, para elas próprias não serem julgadas. […]”

Obra: A Queda. 4. Record, 2024, Rio de Janeiro. Tradução de Valerie Rumjanek Cardoso. De Albert Camus (Argélia/Dréan, 1913-1960).

Quando Clamence se deu conta de suas ilusões, veio a lucidez para lhe dar “todos os ferimentos ao mesmo tempo” (p. 86). Vê-se ridículo na anatomia de um desmonte que fez de seu velho “eu” em uma revisitação da própria história de vida.

Como se defender de si mesmo ao ser ver diminuto, melancólico e, diria, até próximo do depressivo? Considera a morte a única forma de convencimento dos outros acerca de seus dilemas mais íntimos, mas é o que lembra a si mesmo o amor que tem pela vida, sua “verdadeira fraqueza” (p. 81), na medida em que sonda uma ideia de inocência que lembra mais uma frágil abstração; está distante, à semelhança de suas ilações, ainda sim envolto a recorrer das sombras de sua consciência às vezes sóbria, outrora cambaleante, com uma maturidade superficial que lhe parece consistente. Na verdade, penso, ainda meio distante do “juiz penitente”, falta-lhe um pouco de estoicismo e aceite ao sofrimento para alguém que está disposto a encarar o fato de que o tempo áureo passou, e a velhice se desvela exigindo serenidade mediante um cansaço que o impede de experimentar aquela “clareza de espírito” que seus amigos se compraziam em lhe prestar homenagem (p. 79).

Entre um sofrimento que se desenvolve na sua confidente e perturbadora introspecção, é natural, penso, que os amigos agora não mais os enxergue destarte e passam ser vistos, diria julgados, como “cúmplices” de suas afirmações de um ego passado agora flertando com a singeleza que me parece não totalmente desprovida de ingenuidade e saudosismo.

Muito mais que uma crise de meia idade, Clamence percebe o quanto as amizades de alguém que fora por tanto tempo superficialmente visto como modelo de “bem sucedido”, não raramente alimentando delírios pela admiração que não se importa com virtudes e valores mais profundos. Nessa caminhada de reflexão sobre si, que muitos adeptos da autoajuda diriam “desnecessária”, tenta se desvencilhar do comodismo de quem prefere viver fazendo de conta que não enxerga as próprias fraquezas enquanto se apressa a vê-las nos outros.

Comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *