Imagem: University of Exeter

“[…] os palestinos podiam ser punidos ao não receber permissão de sair e, da mesma forma, podiam também ser punidos com a expulsão.”
Obra: A Maior Prisão do Mundo. 2. A criação da megaprisão. Elefante, 2025, São Paulo. Tradução de Alexandre Barbosa de Souza. De Ilan Pappé (Israel/Haifa, 1954).
A conversa com Eurico [559], professor de história, aposentado, iniciou-se quando procurava por este livro de Illan Pappé na livraria Leitura do Shopping Rio Mar. “Um historiador israelense que propõe uma nova abordagem sobre Israel na Palestina, diria um tanto polêmica”, comentei.
Abordagem polêmica… para diversos registros. A dita “Questão Palestina”, entendo, exige a busca de visões antagônicas sob disposição para reavaliação de ideias. A conversa com o professor na livraria foi boa porque estávamos desarmados de nossas convicções enquanto abertos ao controverso. Sobre isso, penso, o mais importante no exercício de leitura é permitir ao juízo simplesmente ler o que autor escreveu, sem “interrompê-lo” ou seja, sem julgá-lo imediatamente; somente depois cabe refletir na depuração do próprio entendimento, “de maneira que minhas ideias e crenças não interfiram a distorcer o conteúdo, tarefa por sinal dificílima” [560].
Busco vivenciar uma filosofia de leitura que possibilite um amor pelo conhecimento e, concomitantemente, respeito com o que o texto afirma ou questiona. Reconheço que há alguns efeitos colaterais curiosos como, por exemplo, ser chamado de “sionista” quando se comenta uma obra de Mitchell G. Bard [561] ou da maior referência em termos de apologia ao Eestado judeu como se encontra: Theodor Herzl [562]. Da mesma forma se poderá ser chamado de “antissemita” quando estiver a comentar obras do próprio Pappé ou de Edward W. Said [563].
O espírito livre produz diante de enviesados esse intrigante fenômeno de se confundir o falar sobre uma determinada linha de pensamento com o falar sobre crenças pessoais. Por isso não me surpreende também na política tupiniquim quando bolsonaristas me chamam de “petista” e petistas, acusam-me de “bolsonarista”. De uma forma ideológica mais ampla, não fico surpreso ser chamado de “comunista”, quando falo sobre Marx, e de “ultraliberal” quando falo sobre Mises. E isso se desdobra em outras áreas quando sou chamado de “católico” por protestantes, e de “protestante”, por católicos, tendo em comum o acompanhamento automático do carinhoso adjetivo de “herege” ou quando me chamam de “ateu” quando abordo filosofias ateístas, o que normalmente acontece com alguém muito religioso, do tipo hermético no sistema de crenças doutrinárias e que não aceita outra visão da vida, ou quando me acusam de “fundamentalista”, fato curioso em um tipo de ateu que é militante quando falo sobre minha crença em Deus.
Evidentemente, tenho crenças, embora seja um amante da razão, e a utilize largamente na formação de meus conceitos, reconheço que crença é um elemento constante e considerável no meu juízo, embora muitos acreditem (desculpem o trocadilho) que se baseiam apenas em fatos ou “ciência” para defenderem suas ideias. Claro que a ciência muitas vezes é única para definir questões, mas quando se adentra em temas de coletividade ou de perspectiva de foro íntimo, razão e fé se encontram e fazem na economia eu ser austrolibertário, na religião, estar no caminho há algum tempo do protestantismo para o catolicismo romano, na política, nem ser petista nem bolsonarista, preferindo uma visão de centro com traços de conservadorismo e progressismo no tocante a questões de direito civil.
Sobre a Palestina tenho a crença hoje que considera o Estado de Israel como um aparato ilegítimo, responsável por diversas violações a nativos que não são judeus, mas isso não significa que vou culpar todo judeu que encontrar com base nas coisas que acredito, a considerar também que conheci judeus que não se identificam com o Estado de Israel, e outros que defendem a existência do Estado na região mas sentem vergonha pelo que foi e é feito aos palestinos. Isso posto, ler Illan Pappé exige um policiamento maior de minha parte para que a experiência não se transforme em uma busca vazia por prazer em argumentos que apenas favoreçam minhas convicções, ficando na maior prisão (perdoem-me outro trocadilho) que uma pessoa pode passar: criada dentro de si mesma, quando escrava de suas crenças, incapacitada de reavaliá-las, tornando-se intolerante por excelência.
Finalmente em relação ao trecho (p. 107) desta Leitura, para o professor Pappé, a Palestina se transformou na maior prisão do mundo para os palestinos quando o Estado de Israel se estabeleceu na política de “cenoura e porrete” adotada no pós-guerra em 1967 quando Israel tomou todo o controle da Palestina histórica (p. 105) e houve uma percepção que se tratava de uma “oportunidade histórica de expandir o Estado judaico” (p. 110), em meio a uma política externa dos Estados Unidos um tanto dividida em três vertentes, não estando fechada com essa ideia (p. 123), sendo sintomática a permanência da embaixada em Tel Aviv, recusando a abolição do status internacional de Jerusalém, defendida por Israel (p.122), enquanto na política israelense se passou a discutir como dominar os palestinos sem expulsá-los e sem conceder a eles a cidadania (p. 106), de maneira que os povos dominados passaram a ter duas opções:
(1) Punição de encarceramento por rejeição ao que fora determinado pelo Estado de Israel ou;
(2) Uma espécie de “prisão aberta” caso aceitassem condições as quais poderiam viver sob um controle ou monitoramento pelo qual não tinham como determinar o próprio futuro.
Eis a essência e não a forma ou o “como”, penso, pois, especialmente em relação às terras tomadas por Israel na Guerra dos Seis Dias em 1967, a envolver Gaza, Cisjordânia, Jerusalém Oriental, Península do Sinai e Colinas de Golã, considera Pappé que “nunca se chegou a uma decisão final quanto ao destino das pessoas que habitavam os Territórios Ocupados” (p. 111) em meio a discussões distintas sobre o que fazer especialmente com os habitantes de Gaza e da Cisjordânia (p. 115). A primeira região envolvia uma política mais hostil, por ser historicamente ligada ao combate de viés guerrilheiro contra Israel nos anos 1950, cogitando-se mais abertamente a expulsão, enquanto na segunda a tratativa foi mais “contida” (p. 111).
Nesse caldeirão de parceiros de dominação com alguns interesses conflitantes e nativos sob um sistema dúbio de submissão que Pappé apresenta como “a maior prisão do mundo”, desenvolveram-se, na visão do professor, bases falseadas para a paz e o debate público (pp. 128-144) a submeter os palestinos à dura realidade de ficarem “sem país e sem nenhum reconhecimento jurídico internacional capaz de proteger seus direitos civis e humanos básicos” (p. 144).
559. 07/04/2026 21h00
560. 12/10/2023 13h12
561. 12/10/2023 13h12
562. 17/10/2023 22h58
563. 14/10/2023 15h58
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