Imagem: Vaticano

“[…] Não podemos considerar o corpo como uma realidade objectiva fora da subjectividade do homem, dos seres humanos […]”
Obra: Teologia do Corpo. Lições de 15/04/1981, 22/04/1981, 29/04/1981 e 06/05/1981. Alêtheia Editores, 2013, Várzea da Rainha Impressores, Óbidos, Portugal, eBook Kindle. Tradução a partir da edição portuguesa do Observatório Romano. De Karol Józef Wojtyła (Polônia/Wadowice, 1920-2005), S. Ioannes Paulus PP. II (1978-2005), São João Paulo II.
Um resumo de quatro lições. O estilo decidi fazer como se tivesse ouvindo o papa e não lendo a obra (citando páginas). Teologia do Corpo surgiu de um programa para um possível livro e depois foi aplicada nas catequeses de quarta-feira (p. 9) no Vaticano.
O corpo humano é um perene objeto de cultura. A dimensão da subjetividade pessoal do homem é indispensável para se compreender as bases do problema do corpo humano na hermenêutica teológica, onde não se deve considerar o corpo como uma realidade objetiva fora da subjetividade do ser humano, na identificação ontológica do corpo com o conteúdo e a qualidade da experiência subjetiva do viver o próprio corpo e na relação homem-mulher.
A experiência da realidade do corpo ocorre nas obras da cultura, nas expressões de arte, em experiências estéticas, nas comunicações sociais, nas imagens, na plástica, na dramática, nas técnicas audiovisuais modernas, no contemplar a obra (aisthánomai, olho, observo, em grego) e também quando o ser humano se torna sujeito da atividade criativa. E este olhar não pode se isolar daquele “olhar” de que fala Jesus Cristo no Sermão da Montanha diante do alerta da concupiscência. O corpo humano nu significa um dom da pessoa à pessoa e o ethos da nudez está para a dignidade humana intimamente ligado ao significado esponsal. No entanto, se a cultura mostra uma tendência explícita para cobrir a nudez, levando em conta o que discorre Gênesis 3 sobre a vergonha, e não apenas por razões “climatéricas”, a anônima nudez contrasta com os costumes, o que pode ser observado em populações chamadas “primitivas”. Porém, o ser humano sensível à vergonha com sua nudez, a supera por situações justificáveis, quando precisa, por exemplo, se despir para exames e/ou intervenções médicas. Deve-se considerar também a violação do pudor corporal pela nudez como um meio para destruir a dignidade da pessoa, prática usada em campos de concentração ou locais de extermínio.
É necessário fazer a distinção de que uma coisa é o corpo humano vivo, outra coisa é o corpo como modelo de obra de arte; na pintura ou na escultura, o corpo é modelo, no cinema e na arte fotográfica, é o ser humano vivo sendo objeto de uma reprodução sob técnicas apropriadas onde há uma perda de contato por ser reprodução vindo a se tornar objeto anônimo, algo observável em revistas ilustradas para esconder ou velar a identidade da pessoa reproduzida, sendo um problema muito delicado do ethos na cultura de massa, onde o corpo perde o significado profundamente subjetivo e se torna um objeto, aplicado ao conhecimento de muitos para a dimensão da “comunicação social”, enquanto também é fonte de uma particular “comunicação” interpessoal, o que remete ao problema do relacionamento entre o ethos da imagem – os da descrição – e o ethos da visão e da audição.
O fato deste problema ser suscitado não significa que o corpo não possa se tornar tema de obra de arte em toda verdade do ser humano, na dignidade e na beleza, – também “supra-sensual” – da sua masculinidade e feminilidade, e sim de que se trata de uma questão que não é puramente estética nem moralmente indiferente, considerando o limite da vergonha (sobre a obscaena, do latim, para tudo que não deveria aparecer diante dos olhos dos espectadores, derivando o problema da “pornovisão” e da “pornografia”), o respeito ao corpo (natureza ética como “elemento do dom”), questões de escala de valores que devem ser reconhecidas e observadas pelo artista que faz do corpo humano objeto, modelo ou tema de obra de arte ou de reprodução audiovisual.
Desde a antiguidade se pode verificar, sobretudo na arte clássica grega, obras onde a nudez humana pode ser contemplada trazendo em si, praticamente oculto, um elemento de sublimação, conduzindo o espectador ao mistério pessoal do homem. Quando não se está determinado ao “olhar para desejar”, abordado no Sermão da Montanha,. é possível apreender, em certo sentido, o significado esponsal do corpo, podendo inclusive gerar objeções na esfera da sensibilidade pessoal do ser humano, quando a obra se reduz a categoria de objeto para o “gozo” à satisfação da própria concupiscência.
Não se tratam de efeitos de uma mentalidade puritana, tampouco de um estreito moralismo e sim de uma importantíssima esfera de valores à dignidade humana, do caráter pessoal e da eloquência do corpo humano, na órbita das palavras pronunciadas por Cristo no Sermão da Montanha, que parecem referir-se também aos vastos campos da cultura humana, inserindo a atividade artística, no “olhar” de um desejo que ocasiona um “adultério cometido no coração”, em uma reflexão que cria um clima favorável à educação da castidade como trabalhado na Encíclica Humanae, para enobrecer tudo o que é humano (ethos da imagem e o que se pode chamar de “ethos do ver”).