Imagem: Site. Dra. Karina Santana

“[…] permita intencionalmente que o campo da consciência se expanda para todo o ato da respiração, e que inclua as várias sensações do corpo […]”
Obra: Guia Prático Mindfulness. Exercício 3. Atenção plena do corpo e da respiração. Karina Santana, 2021, Instituto de Desenvolvimento Neuropsicológico. De Karina Santana.
São 07h40, restam 20 minutos para o primeiro atendimento do dia. Estou no período mais desgastante do ano por conta de validações no Sped Contábil. Dou uma última vista na agenda organizada pela Gioconda, confiro se a sala Zoom está pronta. Até este ponto devo ter pensado no turbilhão de desafios dos últimos meses, processo que provocou um nível de estresse que não tinha enfrentado desde o início da carreira em 1990.
Quem lida comigo no Zoom durante o dia, talvez não imagine que sobre um sujeito um tanto “calmo” e “espirituoso”(dizem), há um longo desgaste emocional sendo administrado com as mudanças que estão em andamento.
Minha esposa é psicóloga especialista em terapia cognitivo-comportamental (TCC) e me ensinou a respiração diafragmática, que tem me ajudado bastante durante o expediente e em momentos onde o estresse e os sintomas de ansiedade ficam mais em evidência. Junto a esta técnica, aplico o Mindfulness antes da abertura dos expedientes (manhã e tarde). São momentos onde me desligo, por uns 10 minutos, de todos os problemas, das obrigações e dos automatismos do trabalho de suporte para me voltar ao corpo e ao espírito. É um outro universo que abre sua porta para me mostrar que a vida, em sua profundidade, jamais deve ser resumida ao cotidiano causador do estresse recorrente. Há um universo dentro de mim pronto para ser explorado e saboreado.
Sento no chão. Quando percebo que a minha mente se acomodou e sinto a respiração se movendo para dentro e para fora do corpo, em um mergulho até a barriga, então, começo a expandir a consciência de maneira que caminhe com a respiração envolvendo as diversas sensações do meu corpo. Sinto minha consciência expandida (p. 51); é uma experiência maravilhosa que dura uns 10 minutos e repito antes da abertura do expediente da tarde. Na medida em que inspiro e expiro, meu corpo é sondado; é como se eu tivesse ativado sobre mim uma “máquina de ultrassom”. Sinto a intensidade dos meus batimentos cardíacos, o movimento de meus pulmões, algum incômodo abdominal, o estado do aparelho digestivo. Tudo vai e volta no ritmo da respiração, aproxima-se e se distancia como uma onda sonora de uma sinfonia; às vezes a sensação é tão-somente de prazer, outras vezes é de neutralidade, e em outras, de desconforto (p. 52).
Quando sinto desconforto nesse processo, percebo logo o quanto estou acelerado, tenso, desgastado; os músculos endurecidos em uma pulsação acompanhada com maior intensidade do tórax à cabeça. Reconheço o quanto essa condição de estresse reflete em minha pressão arterial, circulação sanguínea, sobretudo nos membros inferiores mas, aos poucos, na medida em que acolho meu sofrimento corporal, admito minha situação de desgaste e fico em atenção total ao aqui e agora, nada mais interessa do que seguir nesse movimento que parece uma valsa entre minha mente e o meu corpo surrado, quando assim sinto um reequilíbrio, lento, gradual, como se meu organismo estivesse gritando e de repente, minha mente o escutou para acolhe-lo, liberando-o da dor que eu mesmo criei.
Esse processo tem me ajudado a identificar o que meu corpo e minha mente carecem. O que me é saudável e o que me traz ao tóxico. Sou imensamente grato à minha esposa que me trouxe esse conhecimento atrelado à TCC, na forma de leituras dos autores que mais tenho apreciado em relação a essa técnica budista: a neuropsicóloga dra. Karina Santana, a monja Coen e o monge Thic Nhat Hanh.