Imagem: Planeta de Livros

“Quando não acontece nenhuma catástrofe, avançamos sem olhar para trás, fixamos a linha do horizonte lá adiante. Quando acontece uma tragédia, voltamos, revisitamos o local, procedemos pela via da reconstituição.”
Obra: Viver depressa. Planeta do Brasil, 2024, São Paulo. Tradução de Maria de Fátima Carmo. De Brigitte Giraud (Argélia, 1960).
No último dia 26 quando entrei na Leitura do Shopping Recife, já estava definida esta obra entre muitas recomendações de leitura a realizar.
Em 1999 a escritora Brigitte Giraud estava em um momento importante de sua vida familiar: prestes a se mudar para a nova casa com o marido Claude e o filho. Foi então que tudo mudou; a escritora viveu a tragédia da perda do companheiro em um acidente de moto. Vivre vite conta como Giraud procurou entender essa perda sob perspectivas diversas. Trata-se de um romance autobiográfico vencedor em 2022 da premiação mais cobiçada da França, o Goncourt.
Nesta obra se escancara uma condição pessoal que, penso, é bastante evitada de ser levada a público, pelo menos na forma como abordou: uma busca minuciosa de respostas, as quais não encontrou, diante do inconformismo natural, e que muitos fingem não ter, com a tragédia que divide uma história de vida.
Acaso? Destino? Combinação de coincidências?
Quando uma grande perda está nas expectativas, ocorrendo fora do âmbito do trágico, é comum que do luto se proceda com o que a escritora fala sobre o que me faz pensão na expressão “vida que segue”, onde cada enlutado encontrará o seu tempo para processar e retomar a caminhada. Também pensei que a expressão “seja forte” costuma vir de quem não faz a menor ideia ou não vivenciou profundamente a perda de alguém tão enraizado em termos afetivos. Isso se torna ainda mais distante da realidade de um enlutado quando se dá pelo trágico. Quanto a isso, no trecho (p. 18) desta Leitura, a autora faz uma importante diferenciação.
Em 2005 encontrei na fila de um supermercado em Recife a mãe de um amigo que tive na infância que faleceu de acidente de trânsito havia cinco anos no Rio de Janeiro. Militar da Marinha, foi um jovem extraordinário, um dos pilares da família, e ao encontrar a sua mãe, percebi o quanto ela ainda estava muito abatida, a exemplo do marido, quando conversamos pouco tempo antes.
Pessoalmente, o tema do trágico me remete ao fato de que não há um dia sequer que eu não pense em meu pai, pelo forte vínculo que tínhamos. Ao longo da vida tive pouquíssimos amigos, e o meu pai foi um deles, com o agravante das circunstâncias trágicas de sua morte em 2007. Aconteceu no meu caso o que Giraud aborda sobre essa busca por respostas. Por mais que à época eu tivesse de conhecimento da história de meu pai e de minha família, por conta da psicanálise (1997-2001) que fiz, os “se” continuaram em um vazio de suposições.
Toda dor profunda de uma perda reflete um mundo que existe em cada pessoa a ser melhor compreendido. O livro de Giraud então se tornou algo muito próximo, familiar. Está dividido em capítulos marcados pelos “se”… Se eu tivesse feito aquilo… Se tivesse acontecido isso… Se tal pessoa tivesse realizado isso em vez de aquilo… Se a moto do acidente tivesse sido proibida na França, como está no Japão, matriz do fabricante… Se o marido tivesse feito determinada coisa em vez de outra… Em detalhes impressionantes, Giraud apresenta uma reconstituição dos últimos dias do marido, fazendo o leitor voltar no tempo junto com ela.
Os “se”, penso, não refletem necessariamente uma imatura relação com o trágico. Em Giraud vejo uma sinceridade admirável pelo reconhecimento do imponderável e pela realidade que decidiu externar por indagações que vertem ao âmago filosófico. É um relato de uma mulher que vive (não viveu) um amor imanente pelo marido que se foi e não compreende (e quem poderá compreender?) a ausência desses porquês, o que possibilita ao leitor uma reflexão profunda sobre as fatalidades no sentido da vida.
Vi alguns se apegarem a fé religiosa para encontrarem consolo diante de uma tragédia, muitas vezes confundido com conformismo doutrinário, no entanto, longe de querer entrar no mérito da questão, perguntas essenciais sobre o trágico permanecem sem resposta a evidenciarem o quanto a vida fora do meu controle é imensa e soberana, a delinear o quanto sou frágil e vulnerável.
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