Imagem: Editora Planeta

“[…] O corpo evolui no sofrimento, mas se o sofrimento for demais, aí ele só quebra mesmo. […]”
Obra: Este livro não é só sobre corrida. 8. Começo, meio e fim. Como evoluir. Planeta do Brasil, 2026, São Paulo. De Raquel Castanharo.
Passando por uma revolução alimentar após ingressar no time dos hipertensos, lá estava em junho passado diante do cardiologista que analisava os resultados de uma bateria com mais de 60 exames (as tais viagens…) que fiz nos últimos seis meses, entre taxas, mapa, imagens, esteira e diversos cardiogramas. A resposta mais importante que precisava saber: Posso correr? No pensamento a pergunta foi: Posso voltar a correr? Ele olhou para mim e respondeu de bate-pronto: Sim. Meu sorriso foi seguido de uma lembrança de duas semanas atrás, quando o clínico geral foi espirituoso para explicar os (bons) resultados enquanto pontuou que toda aquela papelada também fosse analisada por um cardiologista.
E lá estou neste último sábado em direção a Leitura do Rio Mar. A bilbiofilia envolve tudo o que eu faço e assim fui direto a esta obra da famosa fisioterapeuta e mestre em Biomecânica da Corrida. O texto se revelou para muitos registros porque foi além de minhas expectativas; linguagem leve, bem humorada, esclarecedora, simples e direta.
Ainda na livraria, parei para meditar sobre duas questões em destaque no primeiro capítulo (p. 15):
Qual o limite do corpo humano?
Até onde nossa resistência é capaz de nos levar?
E incluí imediatamente outra para uma dialética: O que é a corrida? Pensei, uma atividade que vai muito adiante dos aspectos físicos, materiais e estéticos. É uma batalha mental.
Na juventude pratiquei corrida até os 24 anos (1998). Naquele tempo, entre amadores, era comumente feita em pistas de parques, clubes e orlas. Não me recordo de ter visto corredores de rua, exceto em provas. Costumava correr no Parque da Jaqueira no Recife e o número 10 fazia parte da meta. A pista tem 900 metros de extensão (alguns arredondam para 1 km). Quando eu entrava na oitava volta – aos 6,3 km – começava a sentir o peso maior nas pernas, as dores ficavam latentes e a respiração bem mais desafiadora, e então a batalha mental se instalava. Um lado pedia para eu parar sussurrando “está bom por hoje, começou a doer, alivia…”, enquanto o outro dizia “continue, aguente firme, termine!”. O que aprendi com a corrida na juventude? Quando finalizava os 9 km, em cada experiência havia uma realização mental que ia além do esforço físico e dizia respeito a corrida ser uma dimensão distinta da mesma essência de problemas que são enfrentados na vida e exigem antifragilidade (a citação que a autora faz de Taleb na p. 92 é oportuna), resiliência e muita disciplina mental.
Em termos sucintos:
A corrida deflagra uma guerra interna entre o meu eu desbravador e o meu eu comodista. Qual vencerá?
Em meados de 1997, diagnosticado com síndrome do pânico, fui orientado pelo psi a manter a atividade de corrida como reforço terapêutico. Dei um sorriso ainda na livraria quando li nesta obra o tópico (pp. 78-79).
CORIDA É TERAPÊUTICO, MAS NÃO É TERAPIA
A corrida é um recurso terapêutico, assim como a atividade da leitura também.
No último ano em que pratiquei corrida, estava no meio de um furacão: na fase final do tratamento do transtorno de pânico e morando em uma pousada sozinho, enquanto cuidava de uma carteira com um pouco mais de 30 clientes de sistemas. Quando ia à Jaqueira, compreendia o quanto o psi dizia sobre a importância dos hormônios liberados na atividade física em fazer com que contribuísse para que eu passasse pela terapia sem consumir ansiolíticos e outros remédios de linha psiquiátrica, já que eu apresentava forte resistência a tomá-los. Às vezes, um pouco antes de enfrentar a pista de cooper, via-me chorando, mas algo acontecia que me dava força para ir além das lágrimas nas primeiras voltas.
Posso afirmar com experiência na causa de que correr chorando é algo libertador.
No ano seguinte, uma maior carga de estresse enfraqueceu meu sistema imunológico e passei a ter alguns sintomas semelhantes aos da erisipela (que tive em 1992). Sintomas me impediram de correr, e enquanto tomava antibióticos (felizmente a erisipela não voltou), naquele ano consegui vencer por completo o transtorno de pânico, enquanto me envolvia em uma agenda profissional cada vez mais intensa. Estava recém casado, com a carteira de clientes aumentando; eu e minha esposa estávamos construindo a família que hoje somos, com planos em andamento, organizando-se para ter um filho, pensando em construir nossa casa própria (2003-2005), formalizar um negócio (2002) que precisava ir para a internet (2004). etc.,
Hoje entendo que não voltei à corrida porque não consegui me ajustar a uma agenda de obrigações normais, evidenciando uma falha minha que perdurou por 28 anos.
E após quase três décadas de vida sedentária, estou voltando gradualmente a correr. Em termos básicos, observo as três coisas fundamentais indicadas pela autora: adequação do ambiente, repetição e recompensa (p. 55, sendo tema do próximo registro desta obra). Nos primeiros disparos que realizei, o maior cuidado consistiu em não sofrer lesão na reativação de meu corpo tentando se adaptar. A respiração não tem sido a maior dificuldade, pois descobri que a técnica de inspirar e expirar que funcionava bem comigo nos anos 1990, ainda é eficaz. Nos anos 1980 sofri de problemas respiratórios e o médico receitou natação, onde obtive a cura. A técnica de respiração que aprendi na natação, adaptei para a corrida, evidentemente em um ritmo totalmente diverso, bem mais intenso, mas essencialmente diz respeito ao ritmo da inspiração (O2) e da expiração (CO2) – e não se trata de sincronizar a passada com a inspiração, o que a autora bem define como “antinatural” (p. 165) – e sim da busca permanente de um equilíbrio das demandas de energia que sobrecarregam os pulmões. Esse ajuste do ritmo, entendo, é personalizado e provoca o efeito de amenizar um problema comum que atinge a todos nessa atividade: o de se ofegar.
Por fim, a respiração que experimento no mindfulness tem me ajudado também a identificar pontos críticos durante a corrida e assim refinar o ajuste do ritmo da inspiração versus expiração e então, em meio ao sofrimento auto infligido e dosado que faz o corpo evoluir (trecho desta Leitura, p. 166) e caracteriza toda atividade física esportiva, sigo a cada treino na batalha mental nessa metáfora da vida para voltar a atingir os 9 km e então obter condicionamento para uma meta ousada em 2030.