Imagem: Camões Berlim

Teresa Veiga

“[…] não sei se foi um pouco mais tarde, comecei a descortinar em todo aquele movimento sem sentido um grão
de loucura e a perguntar‑me se aquela marcha dançante e as miradas longínquas não eram a marca funesta de uma criatura
que se evadiu para uma região inacessível, cortada da realidade. […]”

Obra: Vermelho delicado. Betânia. Editora Tinta-da-China, 2024, Lisboa. De Teresa Veiga (Portugal/Lisboa, 1945). 

Uma gota de loucura regada com traços de uma tristeza leve e velada caracterizam as sete histórias desta obra, algo tão inusitado quanto a autora.

Antes, quem será Teresa Veiga? A breve apresentação no livro e os mistérios em torno “dela” não me convencem. Aspas pois às vezes imagino que a premiada autora seja um heterônimo feminino usado por um escritor.

O sujeito de Betânia parece ter se acometido pelos impulsos do inusitado com doses de loucura que costumam ocorrer diariamente apenas nos pensamentos de pessoas que se orgulham de serem normais e bem previsíveis. Após recordar o saudosismo da mãe por Portugal, em seu retorno da França em visita à terra natal, ele rever caminhando por uma calçada, em um encontro mergulhado no “acaso”, uma colega de escola (p. 49) “igual a si mesma como se não tivessem passado vinte anos” (p. 47). O reencontro termina na cama do hotel onde está hospedado (p. 52). A maneira como a autora descreve o que ocorre com “Betânia” (aspas nos delírios do sujeito) nos braços do antigo colega de sala, no segundo encontro, é o instante onde o surreal de uma mente, diria, “complexa”, domina a narrativa (p. 55).

Ele sai apavorado do parque e tenta se reconectar com a normalidade de sua vida sem graça. Mas que normalidade pode existir em um sujeito que se confunde a ponto de indagar a si mesmo se não foi atrás da mulher errada? A dúvida sobre se Betânia morreu em seus braços segue como se Teresa Veiga quisesse envolver o leitor em uma bizarrice que nasce no juízo insólito e perturbado do sujeito que se perde ainda mais quando vai ao hospital onde imagina tê-la visto.

Apenas aparentando ter alguma lucidez, revive no parque cada passo no fatídico dia e no que experimentou de confusão em sua mente atordoada pela ilusão do último suspiro de seu antigo afeto colegial (p. 56), e quando finalmente a rever, não sabe o que se passou a seguir, quando então acordou no hospital sem disposição para responder a perguntas que mal tinha condições de entender (p. 57).

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