Imagem: Fronteiras do Pensamento

“Desde sempre Freud pretendeu constituí-la num sistema de pensamento totalmente à parte” […]
Obra: Sigmund Freud na sua época e em nosso tempo. 2. Discípulos e dissidentes. Zahar, 2016, Rio de Janeiro. Tradução de André Telles. De Elisabeth Roudinesco (France/Paris, 1944).
Definir a psicanálise como “uma abordagem clínica da psique” (p. 135) seria um belo eufemismo simplista para o meu eu do ano 2000 diante do freudiano que me tratou e exerceu uma enorme paciência para lidar com quem a definia como “idolatria do abstrato” ou “pseudociência determinista” sobre o comportamento, inspirada em Marx e Darwin.
O melhor é que meu saudoso psicanalista se divertia com minhas sínteses, sempre ditas em tom de brincadeira, porém com um fundo de pretensão de verdade. Digo “pretensão”, porque ao ler o que a autora desta obra afirma sobre a psicanálise ser “um sistema de pensamento totalmente à parte” (p. 135), penso o quanto eu estava profundamente enganado sobre Freud enquanto fazia meu psicanalista rir.
Naqueles dias de laboratório e aprendizado sobre minha psique, havia um ponto verdadeiro quando eu relutava o determinismo com um tanto de fixação sexual das causas segundo abordagens freudianas, problema que reconheci quando fui a fundo no passado de minha vida, e vi, junto com o meu psicanalista, que algo contrastava em meu discernimento sobre o significado das coisas no passado e a ressignificação no presente, mediante o que de fato estava vivendo como propósito.
Eu queria olhar para frente, desejava viver o agora, embora reconhecesse a importância de saber melhor sobre meu passado e, em meio ao senso de humor que nos envolveu, estávamos em uma área onde a psicanálise, de fato, não versa como objeto e nada tem a contribuir para abrir um campo a outra escola de outro austríaco entre os gigantes: Adler, como aponta Roudinesco, o primeiro dissidente daquele seleto e disruptivo grupo de Viena, uma mente igualmente brilhante que, torno à autora, “jamais aderiu as teses freudianas” (p. 138).
Pensar em um paciente que falava constantemente sobre Adler em sessões de um psicanalista, parece ser uma combinação tão interessante quanto misturar água e óleo. No nosso caso, não foi preciso fazer uso de uma epístola paulina para algum enquadramento (p. 139), embora fosse também ateu como Freud. A coisa mais honesta em um intelectual consiste em respeitar os limites onde pode contribuir. Foi a maior lição que aprendi com ele.
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