Imagem: Poetry Foudation

Margaret Atwood

“[…] Somos úteros de duas pernas, isso é tudo: receptáculos sagrados, cálices ambulantes.”

Obra: O Conto da Aia. Capítulo XXIII. Rocco, 2006, Rio de Janeiro. Tradução de Ana Deiró. De Margaret Eleanor Atwood (Canadá/Ottawa, 1939).

Estariam os Estados Unidos distantes de uma distopia de um golpe de estado protagonizado por um grupo fundamentalista cristão? Penso na cena de Trump em uma reunião que começa com uma oração na Casa Branca…

Seria um terror tão distante quanto ao outro elemento desta distopia, que diz respeito a uma sociedade com epidemia de esterilidade que transforma as raríssimas mulheres férteis em escravas sexuais?

Qual distopia seria mais trágica para a América? A da República de Gilead de O Conto da Aia, ou a do outro universo de O Homem do Castelo Alto, onde o Tio Sam ficou pobrezinho e dividido entre nazistas e japas ulrtamafiosos vencedores da Segunda Guerra?

Qual o maior terror socialmente falando? Ser governado por cristãos fundamentalistas ou nazistas? Não sei. Quando penso em uma sociedade comunista, minha ignorância hipotética cresce exponencialmente.

Sobre o Conto da Aia, não tenho como deixar de recordar de meu psicanalista ateu. Enquanto praticante de um ateísmo não militante, gostava de meditar sobre os Evangelhos, especialmente o Sermão da Montanha, e em uma de nossas últimas conversas (2014) me disse duas coisas muito interessantes:

A primeira foi sobre o “anticristo mais eficiente produzido pela humanidade” que, pela ele, seria o tipo “cristão fundamentalista” arraigado na política, o que me trouxe novamente ao romance de Margaret Atwood. Desta deixa do psicanalista então meditei: Político cristão que apela para a Bíblia visando justificar suas atrocidades e canalhices, seria uma versão, em forma de caricatura, de ideais bem próximos da teocracia islâmica que institucionaliza coisas como a misoginia, a intolerância extrema e o preconceito contra confidentes de outras religiões, ateus, praticantes de outros credos, além de ser implacável com gays, lésbicas e qualquer um que se apresente como opositor de seu sistema ideológico.

A segunda foi sobre o significado de “distopia”, quando apresentou a visão de que aquilo que vejo como “individual e socialmente trágico” em uma ficção que expressa uma ordem idealizada (assim o respondi quando perguntou meu entendimento sobre o termo). Para o meu psicanalista, seria um idealismo de quem está no poder na realização do que se apregoa como “bem superior” ou o cenário dos maiores sonhos, e não uma tragédia social sob um certo ponto de vista. O juízo sobre uma distopia então depende da posição e da ética de quem nela se depara.

Aproveitei o diálogo (eram sempre inspiradores) e fiz um exercício de leitura onde me imaginei vivendo em sociedades idealizadas em obras como 1984, Fahrenheit 451, O Homem do Castelo Alto e o Conto da Aia. Ora, o que para mim seria um mundo de pesadelo acordado, de imenso terror, para quem coaduna e vive debaixo das asas aderindo à psicopatia em valores do poder exercido em cada contexto da respectiva distopia, é o que melhor seria para quem se identifica com a ideia do totalitarismo que defende como melhor caminho para o “mundo”.

Refleti e então saí da distopia; pensei em fatos históricos. A eugenia pregada por Hitler é abjeta para mim, inaceitável, mas para um nazista prendado do Reich seria uma questão de “saúde pública”, um “bem” pela “purificação da raça”, visando eliminar imperfeições que possam afetar o desenvolvimento da considerada “espécie superior”. Os campos de “reeducação” de regimes totalitários em modo comunista, que para mim seriam igualmente inaceitáveis, deploráveis, para um camarada bem doutrinado do partido seria uma bondade oferecida aos perdidos e desorientados, diga-se de passagem, qualquer pessoa que discorde de suas crenças políticas autoritárias.

Imaginei-me então no lugar de uma aia, e o que para mim, assim como para toda mulher que se preze, seria viver o cúmulo do trágico se tornar escrava sexual por conta da fertilidade comprovada, para satisfazer a perversão masculina, para um fundamentalista político-religioso no poder, o estupro seria um ato divino, um “bem” a ser ritualizado.

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