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Antonio Gramsci

“Il moderno principe, il mito-principe non può essere una persona reale, un individuo concreto, può essere solo un organismo; un elemento di società complesso nel quale già abbia inizio il concretarsi di una volontà collettiva riconosciuta e affermatasi parzialmente nell’azione. […]”

Obra: Note sul Machiavelli sulla politica e sullo stato moderno. I. Il moderno principe. [Noterelle sulla politica del Machiavelli.] Editori Riuniti, 1996, Roma. De Antonio Sebastiano Francesco Gramsci (Italia/Ales, 1891-1937).

Eis uma paráfrase do príncipe moderno em Gramsci, a partir desta obra de comentários que tem como base inicial sua interpretação sobre o pensamento de Maquiavel.

O príncipe moderno não é uma pessoa real, um indivíduo concreto. Poderá ser “apenas” um elemento complexo da sociedade que sinaliza uma vontade coletiva reconhecida em torno de sua representação se afirmando parcialmente nas ações.

Aqui penso em uma reflexão contemporânea, Non chiamatela Guerra di Putin [572], feita por Mario Fabri que lembra um pouco este pensamento de Gramsci.

“Não foi Putin quem criou a Rússia, mas foi a Rússia que criou Putin.”

Tradução livre

O político em evidência – penso na forma do “príncipe moderno” na síntese (p. 15) de Grasmci – é uma consequência de representatividade e, na ocasião escrevi em relação a Fabbri, de uma coletividade “forjada pela cultura, pelos costumes, por uma visão peculiar de si mesma, em uma questão de psicologia coletiva” [573].

De forma que cabe ponderação, Gramsci indaga: Quando podemos afirmar que existem as condições para que surja e se desenvolva uma vontade coletiva nacional-popular?” (p. 15). Sobre que menciona como “vontade coletiva nacional-popular”, à mon avis, merece uma ponderação quanto ao entendimento de “nacional-popular” estar dividido em vieses ideológicos, e não apenas um. A resposta do filósofo comunista me soa clássica a quem se dedicou ao marxismo: “Por meio de uma análise histórico-econômica da estrutura social de um determinado país e de uma representação ‘dramática’ das tentativas feitas ao longo dos séculos para despertar essa vontade e as razões para os fracassos que se deram” (p. 15).

Os fenômenos de identidade coletiva na política pesam na definição da personalidade em forma de liderança maior. Não se trata de um líder como Putin existir em si mesmo, mas existir a partir de elementos que o forjaram na sociedade russa. Evidentemente, tais elementos não definem totalmente essa sociedade e sim representam uma forma de pensar para o mundo que, ao se tornar relevante, conquista a prevalência, a predominância, o que se atesta na ocupação do mais elevado poder na figura do que fora designado para representá-lo.

Pensei em seguida que esse raciocínio pode ser aplicado, sempre em termos relativos, a Trump, ao Benjamin Netanyahu, ao Xi Jinping, ao Erdoğan bem como a qualquer liderança política de alta relevância que foram forjadas pela psicologia coletiva. Pensei também no presidente Lula e em Bolsonaro como representantes de suas respectivas culturas e visões de mundo sob visão peculiar de si mesmas. Todos esse líderes, nessa concepção, então, não seriam “pessoas reais” no sentido de que desenvolveram internamente seus ideais para depois conquistarem a opinião da massa na atividade política, e sim o contrário: foi o que estava em ebulição, em uma específica massa, que os definiu em termos de crenças, valores, propósitos, condutas, vontades e estilos de comando.

Lula e Bolsonaro seriam “personagens” que representam a consolidação de crenças que predominam na sociedade, cada um em uma determinada visão de mundo dentro do respectivo espectro. O de Lula é um tipo progressista que se tornou predominante na esquerda brasileira, sendo, inevitavelmente bastante desenvolvimentista e intervencionista. Ambos estão carregados de um socialismo que se adaptou ao fracasso de socialismos que tentaram realizar interpretações de cunho marxista. Bolsonaro é outro espectro que ganhou forma a partir da direita, sendo também desenvolvimentista, um tanto moderado, embora isso pareça estranho a seus adeptos, enquanto antagônico ao progressismo intenso da psicologia coletiva que formou Lula.

No espectro de Bolsonaro se confunde o progressismo do espectro de Lula com o “socialismo marxista”, devido a uma distorção cognitiva coletiva típica da massa que o representa (algo inclusive explorado pelo personagem que a lidera), problema que também contribui para que se confundam conceitos de conservadorismo e liberalismo econômico. Lula representa uma ideia de solução permanente contra ideias e rótulos atribuídos a Bolsonaro e vice-versa. O cultivo das distorções, de um sobre o outro, é importante nesses espectros para mantê-los em evidência. Um precisa da propaganda que encarna um “mal” no outro em uma mútua demonização.

Ambos são consequências de uma psicologia coletiva derivada do legado varguista. Bolsonaro é uma atualização do janismo e do “socialismo sutil” da ditadura militar de 64-85. Seu espectro representa uma considerável parcela da população que acredita ser “conservadora nos costumes” e “liberal na economia”, amedrontada pelo espantalho “comunista” associado ao espectro de Lula, em meio ao contrassenso que indica a precariedade de conhecimento mais preciso dos termos.

O espectro de Lula alimenta, motiva, excita, o do Bolsonaro, e vice-versa. Um desaparecendo, o outro ficará em um vazio que poderá levá-lo à perda de sentido eleitoral, a menos que surja outro espetro na psicologia coletiva para contestá-lo à altura de colocar em risco seu predomínio.

572. 12/11/2022 23h32

573. Ibid.

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