Imagem: Jornal Opção

Otto Maria Carpeaux

“O cético é capaz de duvidar de sua própria falta de fé, assim como Anatole France que disse: ‘Tout est possible, même Dieu’.”

Obra: Ensaios Reunidos. Volume I. 1942-1978. Respostas e Perguntas (1953). O utopista Anatole. Topbooks/UniverCidade, 1999, Rio de Janeiro. De Otto Maria Carpeaux (Áustria/Viena, 1900-1978).

Sobre Anatole France, “utopista”, “sempre foi”. Um comunista sem Marx, cético em um século “mais dedicado a dogmas” (p. 509).

Tout est possible, même Dieu’ – Um cético autêntico é um sujeito capaz de colocar em discussão sua própria descrença. Conheci dois ateus assim: um professor de história do pensamento econômico, que se desconverteu assim que deixou o seminário teológico, mas não abdicava de sondar também sua descrença ao reconhecer que o fato de não conseguir enxergar Deus nas coisas não comprova sua inexistência, além de meu psicanalista que, embora não conseguisse abraçar um teísmo, considerava-se um homem “cheio de fé” enquanto não descartava a possibilidade de estar enganado sobre a inexistência do divino, sendo espirituoso o bastante para me dizer que “toda descrença é uma forma de crença”, pois, “ciência, no sentido humano, não é uma questão que careça de acreditar em qualquer coisa para ser comprovada”, embora, a crença na ciência possa ser vista quando se cogita algo, mas logo se desmonta pelo método de investigação.

O verdadeiro cético está aberto a sondar a crença sobre a descrença e a descrença sobre a crença. Um descrente que tenta converter os outros à sua descrença, é um crente militante da descrença, e não um cético legítimo. Um crente religioso disposto a discutir sua fé pode ser um cético? Questão capciosa. Até certo ponto, talvez. Não importa se for um crente teísta, o ceticismo genuíno consiste na capacidade romper barreiras de toda afirmação ou negação que não esteja amparada em fatos, se bem que há quem creia que “tudo é interpretação” e “não existe uma verdade plena, absoluta”, o que faz com que essa afirmação se desminta em si mesma, pois não pode ficar fora do “tudo” que arroga na primeira sentença.

Carpeaux aborda L’Affaire Crainquebille, um romance de Anatole France que eu diria, bem do cotidiano de desencontros na vida a narrar o drama de um ambulante que luta para manter seu negócio, tem problemas com as injustiças do aparelho estatal da justiça que nos esmaga (p. 508) e assim acaba se tornando um vagabundo, sendo uma paródia do caso Dreyfus (p. 507), o que, à mon avis, ironiza o “supremo ideal dos franceses”: a clarté (p. 508).

Ce qui n’est pas clair, n’est pas francais – Uma “utopia da inteligência francesa”, não podendo ir contra uma realidade “cheia de contradições intrínsecas” (p. 508), afirma o intelectual austríaco e brasileiro. Entre mortais a justiça, penso, é engrandecida pela arrogância de seres que se guiam muito mais por crenças do que por fatos, embora digam o contrário, mas esse problema está longe de significar desprezo pela justiça, e sim de buscá-la com sabedoria não a tornando um meio de opressão disfarçada de autoridade ética e clareza dos fatos.

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