Imagem: Adler University

“Exatamente ao contrário do que se possa pensar, a vida é o pior dos educadores. Ela não tem consideração por nós, não nos adverte, não nos ensina; limita-se a castigar-nos e a nos deixar morrer.”
Obra: A Ciência da Natureza Humana. Apêndice. Condições gerais sobre a educação. Companhia Editora Nacional, 1940, São Paulo. Tradução (da edição original norte-americana) de Godofredo Rangel e Anisio Teixeira. De Alfred Adler (Áustria/Viena, 1870-1937).
Palavras que me soaram fortíssimas à época, as quais li para o meu psicanalista em 15/08/1997, após destacá-las na biblioteca, por referência de leitura que ele mesmo indicou, após termos iniciado uma dialética na sessão anterior sobre minha forte resistência às ideias freudianas.
Tão impactante fora aquela sessão sobre a psicologia de Adler que guardei a data. Eu tinha 22 anos e estava apavorado com a síndrome de pânico recentemente diagnosticada e que caminhava para um estado crítico de psicossomatização. Quando as crises de choro se tornaram intensas, familiares me levaram para um centro espírita, experiência que não foi bem sucedida. No meio acadêmico, agraciado por contatos de professores que se interessaram em meu caso, fui então ao encontro da ciência para lidar com sintomas que ocorriam ainda em baixa frequência e variavam em cada crise: falta de ar, tremedeira nas mãos e nas pernas, taquicardia, gânglios inchados, dores musculares e no peito. Em casos mais extremos sentia tontura, perda da fala, desmaio, disartria flácida (eis o primeiro termo que aprendi com o psiquiatra) e delírios que ocorriam em menor frequência, em estado leve, confundidos com fenômeno mediúnico.
Foi a fase mais dramática de minha vida. Eu estava na graduação em economia e trabalhava atendendo cerca de 30 clientes de sistemas contábeis. Cheio de contas para pagar, deixar de trabalhar seria catastrófico, e o mais difícil foi enfrentar o constante risco de sofrer uma crise de pânico enquanto falava em público nos ambientes profissional e universitário. Em uma correria insana, naquele mundo com a internet engatinhando, onde tudo era presencial, vivi sob o fantasma de ficar incapacitado temporariamente para o trabalho e os estudos. Esse medo me impulsionou a aprender logo técnicas para anular os gatilhos.
Naquela maravilhosa sexta-feira, era final de tarde, entrei na sessão perplexo com o que tinha lido da psicologia de Adler. Minha condição de paciente-universitário, jovem com excesso de empolgação, enérgico e um tanto racional, foi bem canalizada no processo de tratamento.
– Se o rapaz gosta tanto de ler… então… – Disse o psi.
Na sessão anterior eu tinha apresentado argumentos sobre o que mais me incomodava na ideia da psicanálise: soava-me “determinista e vazia” em tentar associar minha situação com muita ênfase em levantamento de ocorrências da infância. Eu não aceitava que o passado tivesse um peso que entendi ser tão exagerado no meu presente e o quanto seria possível transformá-lo sem ficar remoendo; queria vencer os ditos “traumas”. Foi então que o psi sugeriu a leitura de alguns capítulos de A Ciência da Natureza Humana para discutirmos na próxima sessão sob outra perspectiva. A paciência comigo tinha que ser mesmo de Jó, pois eu era chato, irritante, questionador demais, disposto a ficar horas em leituras para acompanhar e rebater o raciocínio do psi que chegou a sugerir que eu trocasse economia por psicologia para facilitar as coisas.
Entre as recomendações de leitura estava o Apêndice e quando li (p. 291):
“[…] a vida, também, tem as suas limitações especiais. Não é ela apropriada a transformar um ser humano, embora pareça, às vezes, fazer isso.”
E um pouco mais adiante:
“A própria vida não pode produzir nenhuma mudança essencial. Isto é psicologicamente compreensível, porque a vida trata com os produtos já acabados do gênero humano, com seres que já têm seus pontos de vista definido […]”
Eu precisava ler isso naqueles dias e entender que a transformação teria que vir de minha disposição para assumir a responsabilidade de enfrentar minha própria visão de mundo, minhas ideias pré-concebidas, minhas distorções, minha arrogância, minha energia desmedida, e não esperar que a vida em si fosse me ensinar alguma coisa. Este senhor provocador chamado Alfred Adler, que está entre os três gigantes, ao lado de Freud e Jung, deu-me um estalo quando afirma que essa coisa extraordinária chamada vida “não nos adverte, não nos ensina; limita-se a castigar-nos e a nos deixar morrer” (p. 291). A vida é impessoal, não tem sentimentos; está tudo em minha mente e surpreendentemente para o velho e sábio psi, fora uma definição que me deixou fascinado e curiosamente abriu as portas para que eu pudesse me aprofundar no trabalho de investigar meu passado, mas agora com o foco na transformação do presente e não em lamentos com a vida. Em suma, comecei a perder a raiva da vida.
Mergulhado em uma visão distinta, onde deixei de ficar frustrado com os dissabores que tinha passado recentemente, percebi a ironia de que foi o pensamento de um dos mais ferrenhos opositores de Freud, e por sugestão de um freudiano, que encontrei uma nova dinâmica naquele longo caminho de sessões que percorri até o final de 2001 quando, sob orientação do psi, assumi o protagonismo no processo de superar os gatilhos do pânico.
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