Imagem: Centro Josué de Castro

“O tema dêste livro é a história da descoberta que da fome fiz nos meus anos de infância, nos alagados da cidade do Recife, onde convivi com os afogados dêste mar de miséria. Procuro mostrar neste livro de ficção que não foi na Sorbonne nem em qualquer outra universidade sábia que travei conhecimento com o fenômeno da fome. O fenômeno se revelou expontâneamente .a meus olhos nos mangues do Capibaribe, nos bairros miseráveis da cidade do Recife: Afogados, Pina, Santo Amaro, Ilha do Leite.· Esta é que foi a minha Sorbonne: a lama dos mangues do Recife fervilhando de caranguejos e povoada de sêres humanos feitos de carne de caranguejo, pensando e sentindo como caranguejo.[…]”
Obra: Homens e Caranguejos. Prefácio um tanto gordo para um romance um tanto magro. Editora Brasiliense, 1967, São Paulo. De Josué Apolônio de Castro (Brasil/Pernambuco/Recife, 1908-1973).
Eis o romance do escritor e sociólogo que influenciou enormemente Chico Science e o que viria a ser chamado de Movimento Manguebeat, obra que marcou o início de minha juventude.
Lá pelos idos de 1991 escutei os primeiros acordes do que fervia na cidade. Desde o final da década anterior se desenvolveu um emaranhado de bandas, e então percebi a força de um de tal de “Chico Science”. Em 1993 escutei pela primeira vez a expressão “Movimento Mangue”. Lembro-me que foi após o Abril pro Rock daquele ano. Depois ouvi, por uma fita cassete, o resultado de toda aquela efervescência e ficou claro para mim de que se tratava de algo muito mais complexo, profundo e revolucionário na música brasileira, em meio aos irresistíveis batuques de cultos afros e acordes.
Sobre Josué de Castro, maior recordação vem do professor ZW em 1994, quem se tornaria meu mentor naqueles dias incríveis e tão difíceis que passaria um pouco adiante, a dar uma aula sobre Homens e Caranguejos, depois de esmiuçar os versos de Da Lama ao Caos:
Da lama ao caos, do caos à lama
Um homem roubado nunca se engana
Da lama ao caos, do caos à lama
Um homem roubado nunca se engana
O sol queimou, queimou, a lama do rio
Eu vi o xié andando devagar
Vi um aratú pra lá e pra cá
Vi um caranguejo andando pro sul
Saiu do mangue e virou gabirú
Ô Josué, nunca vi tamanha desgraça
Quanto mais miséria tem, mais urubu ameaça
Ô Josué, Ô Josué… Três décadas depois, ainda sinto uma emoção forte, diferente, sempre que escuto Da Lama ao Caos, Rios, Pontes & Overdrives, Maracatu Atômico, Manguetown, A Cidade com aquela icônica introdução de Boa Noite do Velho Faceta… O sentimento musical me remete à minha cidade e a uma fase de minha vida em que toda aquela energia que vivia estava amalgamada com a consciência que fui tomando, desde os tempos em que caminhava pelas pontes do Recife indo para o meu primeiro emprego (1991-1992) na Av. Rio Branco e observava os catadores de caranguejo:
Cedo me dei conta dêste ·estranho mimetismo: os homens se assemelhando, em tudo, aos caranguejos, arrastando-se, agachando-se como os caranguejo para poderem sobreviver. Parados como os caranguejos na beira d’água ou caminhando para trás como caminham os caranguejos. (p. 13)
Aquele jovem fantástico chamado Chico Science na cena do rock recifense estava próximo demais de minhas raízes com a cidade. Foi um tempo belíssimo onde tudo estava conectado com a cultura, a literatura, a música e as pessoas refinadas que tive a oportunidade de conhecer quando entrei no ambiente universitário.
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