Imagem: Sinopsys Editora

“[…] A cultura que glorifica o excesso de trabalho como virtude e confunde dedicação com disponibilidade total cria um ambiente em que impor limites é visto como falta de comprometimento.”

Obra: O que você precisa saber sobre Burnout. Coleção O que você precisa saber. 6. O Burnout afeta a todos? Sinopsys Editora, 2026, Novo Hamburgo. De Thais Alves Siqueira Araújo Gomes e Sousa.

A psicóloga clínica Thaís Sousa menciona uma confusão (p. 43) que faz parte do meu cotidiano entre profissionais de contabilidade e de tecnologia da informação (TI).

Nos últimos dois anos notei que aumentaram sensivelmente as ocorrências de adoecimento por cansaço crônico entre profissionais dessas áreas que se relacionam comigo e o quanto todos, de forma consciente ou não, foram pautados pela ideia de que a disponibilidade total é a regra por estar associada ao comprometimento, enquanto a imposição de limites para atendimento, no sentido de evitar sobrecarga de jornada de trabalho, costuma ser vista como coisa a ser evitada para que não no mercado.

Como uma chama que vai diminuindo até desaparecer, eis a metáfora (p. 15) da vela acesa que queima até quando não tem mais como manter a chama, pois esgotou o combustível que a mantinha; uma definição interessante para explicar a junção dos termos burn (queimar) e out (para fora) a indicar uma síndrome do esgotamento que ganhou notoriedade nos últimos anos e costuma atingir silenciosamente profissionais devotados, idealistas ou incapazes de se auto preservarem da exposição de jornadas estafantes e assim entram em um “estado de exaustão física e mental, acompanhado de queda na motivação e no desempenho (p. 16).

O meu método de trabalho se baseia em agendamento, com dosagem de jornada e , entre outras coisas, para evitar sobrecarga de trabalho, além de possibilitar uma melhor avaliação do tempo aplicado e dos desgastes do suporte. Quem passa o dia acompanhando meu trabalho normalmente logo percebe que o meu método não acumula tarefas e faz o dia passar rápido sem o velho e conhecido estresse do acúmulo de atendimentos. Isso posto, ao ler este livro pensei o quanto hoje sou visto com certo desdém por alguns contadores, normalmente proprietários de escritório considerados “bem sucedidos”, porque sou conhecido como um profissional de TI e consultoria “cheio de regrinhas de atendimento”, que não fica disponível “ao apertar de um botão”, sendo um sujeito “inflexível” para aceitar trabalhos em modo de urgência e mais importantes, entenda-se “extraordinários” e propostos “fora do expediente”, não raramente em horários noturnos ou em “dias alternativos”, mais conhecidos por domingos e feriados.

A síndrome de burnout é um fenômeno social (p. 50). Não se origina apenas do indivíduo (p. 45), nem está restrito a algumas categorias de trabalhadores (p. 43); surge do cultivo da carga de trabalho em estruturas e culturas que ignoram limites em função de resultados (p. 45). É democrática no sentido de alcançar diversas áreas enquanto “não afeta a todos da mesma forma” (p. 43). A maior probabilidade de contraí-la está no perfil em profissionais de atividades que lidam com alto estresse em ambiente potencialmente “adoecedor”, entenda-se sem política de controle para evitar sobrecarga de jornada, onde há obsessão por metas (p. 45).

O que posso concluir acerca do que observo nesse meio contábil-TI um tanto áulico e carente de boas práticas na gestão de recursos humanos? Que tenho muito orgulho de minha “má” fama de chato, por saber dizer não a quem despreza certos limites, jogando no mesmo time dos que costumam descartar como coisa qualquer quem adoece e deixa de ser útil.

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