Imagem: Al Jazeera

“[…] equiparando impropriamente antissionismo e crítica ao Estado de Israel, deixa-se de falar do verdadeiro antissemitismo […]”
Obra: Quando o Mundo Dorme. Histórias, palavras e feridas da Palestina. Alon. Como reconhecer uma pessoa antissemita.. Tabla, 2026, Rio de Janeiro. Tradução de Cláudia Tavares Alves. De Francesca Paola Albanese (Italia/Avelino/Ariano Irpino, 1977).
O capítulo aborda a influência do professor ítalo-israelense Alan Confino (p. 96 e p. 101) nas reflexões de Francesca Albanese em relação ao tema do antissemitismo.
Na política se exerce a arte de confundir para manipular, eis o que penso quando se aplica no sendo comum o termo “antissemita”, via de regra a quem emite crítica negativa ao sionismo e ao Estado de Israel (p. 98). Por essa confusão, palestinos, vítimas da invasão israelense e do genocídio dela derivado, por se oporem às políticas do Estado de Israel, são comumente considerados “antissemitas” (p. 95).
A imprecisão dessa aplicação, penso, fez-me pensar no meu então professor judeu e ateu, quando em 2002 detonava as políticas do Estado de Israel. Por esse viés distorcido também são “antissemitas” hoje judeus simpáticos ao “Free Palestine” que observei na França e na Itália. Um respeitável senhor empresário e judeu que conheço há dez anos, que vive nas tradições judaicas, mas discorda categoricamente do que é feito no Estado de Israel, também seria “antissemita” nessa distorcida definição.
Para dar um brilho nessa bestialização conceitual, sigo a pensar em termos de descendência de Sem, que estudei no seminário, associada a idiomas falados no Médio Oriente, além da herança genética, por estudiosos que classificaram o termo com a humildade que a ciência ensina. Isso posto, a identificação “semita”, pelo DNA abraâmico é coisa rara entre judeus do Estado de Israel, o que os desqualifica como tal, a considerar também que palestinos podem ser mais próximos do patriarca bíblico do que muito judeu que arroga para si a tal herança terrena. Então, tal ressalva faz do termo, quando associado exclusivamente a Israel, algo de enorme imprecisão, quando não desonesto. Outro fator está na ignorância de que árabes também fazem parte do conceito de semita. Em suma, um judeu pode ser um tipo de semita, e não o único. Não é de se admirar então que soa por demais estranho, nesse confuso mundo de narrativas políticas, com fetiche pelo Estado de Israel, o termo ser utilizado em relação a árabes. Pessoalmente nunca vi alguém ser acusado de antissemita por não gostar de árabes, aplicação do termo que para mim faz sentido. Porém, quando um árabe sofre algum preconceito ou é alvo de ódio, recorrer ao termo “islamofobia” seria ignorar que nem todo muçulmano é árabe, e vice-versa.
Agora me volto ao que define a International Holocaust Remembrance Alliance (IHRA), citada pela autora, acerca de “antissemitismo” consistir “no ódio, na discriminação, no preconceito, contra os judeus enquanto judeus” (p. 97), o que entendo ser um conceito limitado, parcial, relativo. Albanese então aponta o “verdadeiro antissemitismo”, por sua visão, a residir nas “direitas que veem os judeus – assim como veem os árabes e as pessoas homossexuais – como algo impuro que deve ser eliminado do sistema ocidental para preservar sua pureza (p. 98). Gays e árabes entraram nessa concepção, entendo, por analogia e não por etimologia.
A advogada e relatora especial da ONU lembra algo muito importante para a contemporaneidade: a ideia de raça superior, transformada em ideologia política, não desapareceu com Hitler que, à mon avis, foi o maior disseminador do conceito, mas longe de ser o único. À época conseguiu canalizar multidões movidas por um racismo categórico e que nos dias atuais perduram disfarçadas de outra coisa. Pondera também a doutora Albanese que “o mito da raça sequer foi inventado por Hitler”, a lembrar os genocídios que ocorreram na conquista europeia das Américas (p. 99), romantizados em obras cinematográficas como Quando é preciso ser homem e Dança com lobos (p. 100). Penso que até mesmo no contexto mais adiante, e aqui faço uma citação pessoal, o genocídio de indígenas na América é muito bem denunciado por Dee Brow em Enterrem meu Coração na Curva do Rio, que também ganhou adaptação para a sétima arte.
A confusão serve para quem ou o quê? Para obscurecer o debate sobre quem invadiu terras de palestinos e desde então estabeleceu uma política de limpeza étnica e, ardilosamente, joga o problema do ódio exclusivamente sobre quem foi violado (p. 103), ou como bem lembra a autora, entendo, é humano sentir ódio de um agressor, embora penso que seja um sentimento tóxico a ser evitado.
O mais interessante nesta experiência de leitura foi em relação ao que dissera o historiador israelense Avi Shlaim à autora, acerca dos três pilares do judaísmo: a verdade, a justiça e a paz. Albanese encarna esses valores em “quantidades extraordinariamente elevadas”, para em seguida afirmar que “deve haver muitos judeus no mundo todo incomodados pela traição por parte de Israel desses valores judaicos fundamentais” (p. 108).
578. 13/08/2025 22h30
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