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“O Budismo é cem vezes mais realista do que o Cristianismo; tem em si a herança de saber formular os problemas de modo ; objectivo e frio, surge após séculos de actividade filosófica […]”“
Obra: O Anticristo. XX. LusoSofia, 1997. Tradução de Artur Morão. De Friedrich Wilhelm Nietzsche (Reino da Prússia/Röcken, 1844-1900).
O filósofo que anunciou a morte de Deus contrapõe dois saberes que podem ser bem apreciados: budismo e fé cristã. Evito “cristianismo” porque entendo ser outra coisa.
O budismo, para o irmão Nietzsche (membro da “igreja” do pastor Abdoral), “é a única religião verdadeiramente positivista”. Não luta contra o pecado, mas contra o sofrimento (pp. 17-18). Sobre este ponto, não penso que se trata de uma “luta” contra o sofrimento, no sentido usual que se dá na fé cristã em relação ao pecado, porque o budismo, entendo, ensina a acolher o sofrimento para transformá-lo em uma espécie de “adubo espiritual”.
Não penso aqui em teologias contemporâneas, tão em evidência no protestantismo, pautadas na prosperidade material, quando considero que o sofrimento, de certa forma, também é acolhido na fé cristã, desde os tempos apostólicos, como parte de uma pedagogia divina. No caso cristão há um teísmo, um ser soberano, divino, que ensina nas dores físicas e emocionais. Esse tipo de sabedoria que a fé cristã raiz oferece, enquanto distante de muitas confissões atuais, aproxima-se da proposição budista do aprendizado nas dores. A diferença maior, entre outras, é que a sabedoria budista não se baseia em um teísmo.
O irmão de fé do meu amigo de infância aponta outro aspecto do budismo que o diferencia da fé cristã: “não exige a luta contra os que pensam de outro modo” (p. 18), e aqui penso que a sabedoria budista é um tanto socrática, endógena, de uma verdade de dentro para fora, que nasce com a meditação e a sondagem de si, do próprio território corporal, ou como sugere o filósofo do martelo, o budismo não propaga “militarismo” (p. 19), penso; não busca convencer as pessoas e sim orientá-las. Não possibilita o que entendo ser um problema grave no cristianismo em relação à colonização do outro na pregação missionária, promovida por doutrinação confundida com “conversão”.
O budismo, e torno a Nietzsche, “não promete, mas cumpre; o Cristianismo promete tudo, mas nada cumpre” (p. 43). A última parte do argumento denota a visão deveras pessimista do marrento que mais aprecio. Pondero que o sentido de conversão na fé cristã, à mon avis, pelo menos em termos primitivos, é bem mais profundo em comparação com o que se pratica em muitas confissões da atualidade. Penso no termo face a uma consciência autêntica da realidade de si mesmo para inversão de sentido de maneira que se vá em direção a Deus.
Realizo algumas práticas budistas em técnicas de respiração e meditação relacionadas com o Mindfulness. O budismo para mim hoje significa uma filosofia aplicada, embora também seja considerado religião. Entendo que a sabedoria budista tem muito a contribuir para o mundo hodierno tão infantilizado no tema da dor, no sentido de evitá-la e banalizá-la com paliativos, fugindo com analgésicos em vez de conhecer suas raízes para um tratamento pleno, profundo, pautado no autoconhecimento. Sobre isso, Nietzsche afirma algo que me pareceu familiar:
“O Budismo é uma religião para homens serôdios, para raças que se tornaram doces, gentis, excessivamente espirituais, que são hipersensíveis à dor (a Europa ainda não está, nem de longe, amadurecida para ele)” (p. 20).
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