Imagem: Library of America

Reinhold Niebuhr

“NATIONS, as individuals, may be assailed by contradictory temptations. They may be tempted to flee the responsibilities of their power or refuse to develop their potentialities.”

Obra: The Irony of American History. Chapter VII. The American Future. Charles Scribner’s Sons, 1952, New York. De Karl Paul Reinhold Niebuhr (EUA/Missouri/Wright City, 1892-1971).

O pensamento do teólogo Niebuhr, desde o apreço (2008) desta obra, começou a fazer parte das referências em minha procura por uma compreensão do mundo, coisa que tento minimamente ter desde que me dei por gente, pensante e carente por natureza.

O parágrafo do trecho (p. 130) desta Leitura é um dos mais interessantes que li, na visão de um intelectual norte-americano, acerca do significado do poder e o peso da liberdade nas relações entra as nações. Começa pelo problema de que as nações, na condição de indivíduos, não como se costuma abordar na confusão com “estados”, “podem ser assaltadas por tentações contraditórias”, no sentido de fugir de responsabilidades do seu poder ou na recusa do desenvolvimento de suas potencialidades, o que inclui a rejeição do reconhecimento dos próprios limites, de maneira que se busca “um poder maior do que o concedido aos mortais”. Aqui não é preciso fazer muito esforço para ver como “grandes líderes”, no comando de potencias na política, costumam agir como se fossem divinos diante de quem está bestializado em seu campo de domínio ideológico.

Ainda neste parágrafo maravilhoso, a servir de apresentação em forma de resumo do capítulo, Niebuhr afirma que “não existem limites fixos para as potencialidades dos homens ou das nações” e que também “não há uma linha divisória nítida entre uma expressão normal da criatividade humana e a na recusa para assumir as responsabilidades da liberdade humana”, para em seguida completar, “ou o orgulho que sobrestima o poder individual ou coletivo do homem”. Sobre esse ponto, além do problema da contradição no exercício do poder, penso na relação do orgulho coletivizado com a ilusão que acomete muitos que depositam suas esperanças em grandes arranjos ideológicos e, sobretudo, em políticos na crença medonha no “homem forte”, algo que se torna um caminho perigoso para regimes autoritários ou tipos como Trump e Putin que ficam em evidência.

Niebuhr encerra seu “abstract” com o argumento esperançoso de que “é possível discernir, com muita clareza, as formas extremas de cada mal; e também reconhecer diversas nuances do mal entre os extremos e a norma”. E então se volta à sua nação, mediante as potencialidade que possui, e reconhece que se iludiu com a ideia de que se poderia viver “sem muita preocupação com um mundo atormentado” (p. 131). Os Estados Unidos representam, entendo, um tipo de potencialidade imensa, em termos de influências, mas que se perdeu no próprio poder que concentrou. Retorno ao teólogo que afirma: “não poderíamos estar verdadeiramente seguros em um mundo inseguro, nem encontrar valor na vida se comprássemos nossa segurança ao preço da ruína da civilização” (p. 131); eis outra contradição que costuma acometer muitos na América, além de tantos que acreditam em sua propaganda. E, nessa mesma América que promoveu inúmeros conflitos por mundo afora, seria no mínimo insensato esperar que o mundo por ela atingido nocivamente não reagisse mal.

Acredito que a paz, o respeito e a civilidade são fatores de relacionamento horizontal enquanto fenômenos que se dão em cada indivíduo, de maneira que esse espírito prevalece em sua cultura de nação, e não pode ser assegurado por altas cúpulas de poder que excluem muitos que estão sob problemas e danos causados por quem se considera no direito de exercer o papel que ignora os menos desenvolvidos, quando não também acometidos pelo mal maior de se comportar como senhor do mundo.

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