Imagem: Jornal Opção

Otto Maria Carpeaux

“O CONTO pertence a uma camada mais velha da literatura do que o romance. O romance é filho das épocas modernas, da tipografia: […]””

Obra: Ensaios Reunidos. Volume I. 1942-1978. Segunda Parte: Interpretações. Ponte grande. Reflexões sobre a arte do contista Thornton Wilder. Topbooks/UniverCidade, 1999, Rio de Janeiro. De Otto Maria Carpeaux (Áustria/Viena, 1900-1978).

Romance é para ser lido, conto é para ser narrado, explica o mestre Carpeaux. O romance, na relação que tem com a modernidade conforme se discorre no trecho desta Leitura (p. 122), é também a substituição da narração pela informação cheia de “psicologia preconcebida, cheia de colorido frágil” (p. 125). No talvez do crítico austro-brasileiro sobre o conto de fadas ser “o último conto autêntico, conto da infância da humanidade”(p. 122), incluo o que compreendi acerca de um professor de literatura em 2014 que, ao dar uma aula sobre o Conto da Aia [596] em uma livraria de São Paulo, assim o fez como se estivesse narrando, inclusive representando em primeira pessoa, estilo que inseriu os ouvintes em uma áurea teatral.

Sobre o contista Thornton Wilder (1897-1975), “estranho e comovente” (p. 122), “um bloco isolado na literatura americana” (p. 123) define Carpeaux, um narrador que se contentou com 200 ou 100 páginas (p. 124) e procurou nas tradições antigas e esquecidas o sentido da vida, e não “desesperadamente nas realidades vivas” (p. 123). A ponte é o símbolo do autor de Cabala (1921), que narra o fracasso de cinco damas no descoberta de que a ponte das tradições já não está tão firme (p. 123).

O lamento saudosista é vencido por Wilder na busca em si de uma essência deixada no passado para se compreender o presente, penso aqui quando Carpeaux o define como não sendo um “sonhador” (p. 125) enquanto pautado em discorrer sobre a morte (p. 125), cuja peça A morte de Mozart, “a Morte diz ao artista agonizante, ‘É a própria morte que te manda escrever este réquiem […]'” (p. 126).

A síntese que o crítico apresenta sobre a América para o contista americano ser “uma Europa transformada” (p. 124), pensei, ilustra novamente o tema perene do encontro do novo com o antigo sem apelos sentimentalistas, no estilo do contista fissurado no “país do passado” (p. 124). Também tem uma certa inclinação com as coisas antigas, mas sob a influência do conceito de Nietzsche acerca do “eterno retorno”.

Por último, tentei imaginar a técnica usada por Wilder com um régisseur chamando e dispensando os personagens na peça Our Town (p. 124), o que me fez pensar em um ensaio de A Tempestade (Shakespeare) que pude conferir em São Paulo (1996), onde a ilha deserta estava ao fundo de dilemas do perdão e das fantasias da vida. Fiquei fascinado com o empenho do narrador e a determinação de cada ator repetindo inúmeras vezes até obter um sincronismo naquele complexo entra e sai dos personagens entre os náufragos e os habitantes da ilha.

596. 13/05/2026 20h44

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