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Nietzsche

“A minha fórmula para a grandeza do homem é amor fati: nada pretender ter de diferente, nada para a frente, nada para trás, nada por toda a eternidade. O necessário não é apenas para se suportar, menos ainda para se ocultar – todo o idealismo é mentira perante o necessário – mas para o amar…”

Obra: Ecce homo. Porque sou tão sagaz. 10. Textos Clássicos de Filosofia. Universidade da Beira Interior, 2008, Covilhã. Tradulçao de Artur Morão. De Friedrich Wilhelm Nietzsche (Reino da Prússia/Röcken, 1844-1900).

Nietzsche e o amor fati são caríssimos para mim e entraram em minha vida de leitor através de um pequeno círculo de alunos e professores universitários, lá pelos idos de 1995, em “colóquios” organizados em uma sala de Bulletin Board System (BBS) [597] de Recife.

Entre os debates um tanto acalorados no que fora uma “proto-rede-social”, com suas conexões discadas que caiam como a frequência de provocações que me eram destinadas, talvez por ser o único cristão do grupo à época, curiosamente fui me identificando com o termo que marcaria minha vida até os dias atuais.

Uma chave para se compreender o contexto do amor fati suscitado por Nietzsche em Ecce homo, à mon avis, encontra-se no que o filósofo afirma sobre amar o destino discernindo a beleza de cada acontecimento, onde as adversidades servem para crescimento pessoal. Como um genuíno filósofo, Nietzsche aplicou o conceito em sua própria experiência de vida, no que para ele se tornou “suave”, e mais ainda quando dele se exigiu o mais difícil (p. 410). É algo estoico (descobriria naquela sala) amar incondicionalmente o que a vida reservou, sobretudo em situações que causam desconforto e sofrimento. Há outro argumento de Nietzsche que me chamou atenção quando comecei a estudar o amor fati, e se conecta sobre o que o filósofo afirma sobre o que em si é necessário não lhe lesa (p. 100), o que me deixou ainda mais interessado, para logo em seguida sentenciar: “amor fati é a minha mais íntima natureza”.

Comecei a ficar mais assíduo naquela sala de BBS – e anotar ou imprimir muita coisa como se estivesse em uma sala master de aula – quando me dei conta de que aquele ambiente era muito sofisticado em termos de pensamento filosófico, talvez por ser restrito a docentes e graduandos cuja a maioria se conhecia pessoalmente, bem diferente do que seriam as redes sociais que nasceriam com base na internet. E assim percebi que estava diante de uma oportunidade para crescer pessoalmente em leituras que eram recomendadas, e não “apenas” por aprender acerca do que o filósofo decidiu adotar para si, o que me pareceu algo muito ousado e bem pessoal, além de reações críticas que me soaram como extremamente bem elaboradas, em especial a que fora apresentada por um colega de graduação em economia – judeu por laço familiar enquanto ateu – quando perguntou ao mais nietzschiano do grupo, um dedicado professor de filosofia às obras de Nietzsche, que era docente de outro centro acadêmico:

Como um judeu, um gay e um cigano poderiam aplicar o conceito vivendo em um campo de concentração nazista?

E em seguida:

Como um portador de deficiência física poderia amar o próprio destino sendo cobaia de Mengele?

Questões que despertaram uma saraivada de outros problemas onde foram lembradas as vítimas da Somália morrendo de fome, os moradores de rua no Brasil, as vítimas do Holodomor na Ucrânia…

Os problemas de uma imensa lista mereceram uma longa e profunda resposta do professor que, entendi à época, abriu minha visão para o que me era novidade: a ressignificação do sofrimento como processo que transcende o trágico, tirando-me do foco exclusivo do mal extremo que compõe o fenômeno em si, o que acabou por reforçar meu interesse no amor fati.

Provocações de cunho ateísta surgiram então quando decidi me manifestar e associar o intrigante conceito [598] a partir de uma concepção de “ordem natural” estabelecida por Deus, evidentemente sob a ótica da fé religiosa que tinha (confissão batista), o que foi visto como um “completo absurdo” ao considerar a filosofia “terrena” de Nietzsche, o mesmo que anunciou a “morte de Deus”. Dez anos se passaram e eu estava no seminário teológico tentando aprimorar esse conceito para a minha vida, enquanto a maior fonte ateísta daquele tempo estava no catolicismo romano.

Em minha releituras, deparei-me hoje com um apontamento pessoal de 2010, quando me chamou a atenção o que Nietzsche argumenta nesta obra sobre “dizer sim sem reserva, até mesmo ao sofrimento, à própria culpa, a tudo o que é problemático e estranho na existência… Este sim derradeiro, entusiasta, exuberante e folgazão à vida não é só o mais excelso discernimento, é também o discernimento mais profundo” (p. 54), e foi naquele instante que então pensei o amor fati, na interpretação de Nietzsche, como algo bem próximo ao que a fé cristã considera sobre a pedagogia divina no sofrimento, na dor, além de outras experiências que passei por ressignificação em psicoterapias.

E, ao longo desses 31 anos de contato permanente com o conceito, pude experimentá-lo em combinação com a ideia do “eterno retorno”, marcando muitas das decisões que tomei desde então.

597. 1995 foi o ano em que a internet começou a ser mais conhecida no Brasil (em 1997 ficaria popularizada) e a BBS vivia seus últimos tempos como serviço de comunicação por chat que utilizava uma conexão discada para uma rede, representando assim um estágio anterior ao da internet como a conhecemos hoje. A BBS era usada para compartilhar avisos de professores, artigos, manifestos, ensaios, poemas, além de encontros para debates. No pequeno grupo que participei, os debates eram chamados de “colóquios” destinados a temas de filosofia e muita poesia.

598. Hoje nos meus 51 anos, em parte com o amparo de textos estoicos e experiências no decorrer da vida, o amor fati ficou mais nítido em meus pensamentos, mas para aquele meu eu de 20 aninhos – que não fazia ideia do que era o estoicismo – pareceu algo obscuro e, ao mesmo tempo, muito excitante.

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