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Platão

“Dize-nos pois, Sócrates, por que motivo se pode certamente negar que seja coisa permitida o suicídio?”

Obra: Fédon. O Prazer e a Dor. Abril Cultural, 1972, São Paulo. Tradução de Jorge Paleikat e João Cruz Costa. De Platão (Atenas, 428/427 – 348/347).

Após rever o filósofo marrento do martelo que tanto me apraz, revisitei recentemente a dialética de Sócrates com Cebes sobre o suicídio, e pensei o quanto está próxima do que é comumente argumentado na cristandade:

“Cebes, que aí se encontra justamente expresso, creio, o seguinte: os Deuses são aqueles sob cuja guarda estamos, e nós, homens, somos uma parte da propriedade dos Deuses. Não te parece que é assim?

– Parece-me – respondeu Cebes.

– E tu, por acaso – continuou Sócrates – não havias de querer mal a um ser de tua propriedade que se matasse sem que tal lhe tivesses permitido? E não tirarias de seu ato a vingança que fosses capaz de tirar?

– Efetivamente. É provável, portanto, que neste sentido nada exista de irracional no dever de não nos matarmos, de aguardarmos que a divindade envie qualquer ordem semelhante àquela que hoje se apresenta para mim”(p. 69).

A indagação socrática me remeteu ao sentido predominantemente dado pela fé cristã de que a vida é sagrada, inalienável, e o ser humano uma espécie de “gestor” que se encontra como detentor desse bem, não sendo a sua causa original tampouco o seu proprietário. Ao desfazer dessa confiança nele depositada em função do dom, afronta ao verdadeiro dono que o concedeu, o que enseja em responsabilidade que a fé religiosa se ocupou de abordar.

Isso posto, em 2010, quando estava revisitando o problema do amor fati em Nietzsche, relacionado com o sentido do sofrimento como forma de desenvolvimento pessoal, em outro colóquio, fui confrontado com o argumento, bastante utilizado, e também inspirado por uma leitura nietzschiana, de que a fé cristã, ao longo da história copiou e deturpou muita coisa que da filosofia clássica se originou e, de forma mais específica, citou-se a questão da penalização ao suicida, por sinal algo que também se relaciona com o problema da perda de sentido existencial como fator a ser ponderado na aplicação do conceito estoico do amor ao destino adotado por Nietzsche. Por graça, contei com um suporte de retaguarda muito bem versado nas obras de Platão naquela oitiva que então me lembrou sobre essa passagem de Fédon.

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